segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Língua de Vaca, Labaça e Azedinha

Muita de língua de vaca, ou labaça.
A língua de vaca é uma planta que demorei para conseguir identificar, e agora que a conheço parece que a encontro por toda parte. É uma PANC, do tipo hortaliça folhosa, nativa da Europa, porém naturalizada por todo sul e sudeste do Brasil. Aqui em São Paulo ela está por toda parte, especialmente em terrenos mais úmidos. A Horta das Corujas é um exemplo, ela está repleta de língua-de-vaca. Produtores de Parelheiros que visitei também as tem em abundância, assim como na Serra da Cantareira.

Quem me apontou pela primeira vez seu uso foi a Madalena, da Horta das Corujas, sobre quando as consumiam quando morava no interior, escaldada com alho e cortada finamente. De fato, esse uso é muito comum, sendo usada como um substituto mais rústico e abundante para a couve. As folhas podem chegar a mais de 40 centímetros, sendo compridas e de verde intenso, levemente ásperas e com textura "amassada". Vários trabalhos de etnobotânica aqui no Brasil mostram seu uso como hortaliça. 

Há duas espécies muito parecidas. A Rumex crispus possui folhas mais arredondadas, com o pecíolo avermelhado e sabor mais ácido, sendo boa substituta para o ruibarbo. A espécie Rumex obtusifolius possui folhas mais finas, apontadas para cima e nem sempre apresenta pigmento avermelhado. No sabor, são muito parecidas, e em geral nascem lado a lado. Há ainda Rumex pulcher e Rumex conglomeratus, ambas comestíveis e aparentadas. 

Rumex obtusifolius. Note os talos verdes e as folhas
compridas e finas. Saborosa!

Rumex crispus, folhas arredondadas.
Rumex crispus, jovem. Note os talos avermelhados.
Comestível e saborosa.

A sugestão de consumo é para as folhas jovens, menos fibrosas e sem o sabor forte e característico da verdura. Embora seja possível consumi-la crua, o sabor é forte e quando cozida ou refogada, fica mais brando e palatável. Às vezes, tem certo amargor, como a escarola, mas pode ser mais neutra dependendo do solo e do ambiente. Possui compostos fenólicos e antioxidantes, sendo usada algumas vezes na medicina popular e na alimentação de animais domésticos, como galinhas e porcos. 

Preste atenção em áreas antropizadas brejosas e úmidas, porque essa planta gosta de umidade. Ela forma touceiras e tem as flores pequenas, verdes ou avermelhadas, dispostas de maneira similar às da tanchagem, embora muito mais altas e por vezes, ramificadas. Multiplica-se por elas ou por divisão de rizomas, que são profundos e rebrotam abundantemente desde que o solo seja fértil. 

Flores


Flores e sementes
As folhas ficam boas em sopas, refogadas, acrescidas ao arroz, farofas ou usadas em massas de pães e panquecas. O sabor é picante, penetrante e potente, então poucas quantidades já satisfazem. Há poucos estudos a respeito de seu valor nutricional. Acredita-se que, por ser parente irmã da azedinha (sorrel), tenha bons valores de vitamina A, C, magnésio, potássio e cálcio.  

Outra parente, a azedinha

A azedinha, aliás, é a Rumex acetosella, rica em ácido oxálico e de sabor incrivelmente ácido, assim como os trevos. É uma verdura que parece já vir temperada. Poucas folhas picadas na salada dão graça e sabor. Dela podem ser feitas, além de saladas, sucos, cremes, sopas e até geleias. É parecida com a língua-de-vaca, com exceção de que suas folhas são lisas, finas e mais suculentas, e seu porte é menor. Já é encontrada em algumas feiras orgânicas para vender. Aqui em São Paulo é comum na Feira do Parque da Água Branca. 

Para cultivar azedinha, em geral usa-se divisão de touceira, porque ela não produz sementes com facilidade. Como as demais espécies do gênero, gosta de solos férteis, ricos em matéria orgânica e sempre úmidos, com boa umidade do ar. Uma hortaliça sensacional!

Plantação de azedinha, Rumex acetosella.

Muda de azedinha.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Batata d'agua, espinafre chinês, Ipomoea aquática

Falamos em uma postagem recente sobre o uso culinário das folhas da batata-doce. Há ainda outras espécies da mesma família, como a Ipomoea aquatica, chamada de espinafre-chinês e espinafre-da-água, uma planta de pequeno porte e que produz batatas muito pequenas.

Já vi várias vezes maços deles sendo vendidos nas feiras e mercearias orientais aqui da capital, mas nunca dei a atenção merecida. Ele possui folhas compridas e macias, com poucas fibras, sem penugem e que cozinham rápido. Os talos são ocos, crocantes e sem fibras, podendo ser preparados junto com as folhas ou separados e usados como "vagem", mantém a linda cor verde, a crocância e o sabor adocicado. Refogada fica fenomenal, assim como empresta cor, sabor e textura para tortas, risotos, refogados, omeletes e até mesmo para pizzas.O omelete dela, aliás, é um clássico oriental.


Adaptada a ambientes encharcados, como beira de rios e lagos, é muito popular na Ásia como hortaliça, idêntica ao espinafre, porém sem oxalato e muito mais nutritiva. No bairro da Liberdade em SP é possível encontrar maços delas de R$3,00 a R$5,00 nas mercearias chinesas.Qualquer ramo pode ser colocado na água e em poucos dias pode ir para a terra. 

Na horta, plante junto dos inhames e bananas, ou seja, em ambiente mais úmido, embora mais ensolarado. Eu gosto de fazer mudas individuais em garrafas vazias ou caixas de suco ou leite, usando uma mistura de 10% de areia, 40% de terra de composteira e 60% de terra de jardim, e deixo enraizar em local semi-sombreado e com pouca incidência de vento. Remova a maioria das folhas maiores, deixando três ou quatro nos brotos terminais. É possível consumir os brotos e plantas a porção inferior do caule também. Quando começar a brotar, ou depois de três semanas, pode ir para local definitivo, mais ensolarado.

Ela deve ser colhida sem ser arrancada pela raíz, brotando abundantemente e formando pequenas touceiras em algumas semanas, quando pode ser colhida novamente. 

Batata d'água, de folhas finas. Adora locais úmidos.

Flor da batata d´água.

O caule oco é crocante e saboroso, lembra a vagem
e tem sabor suave e adocicado. Hum!

Num maço, tudo se aproveita, folhas e caules.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Batatas Doces Coloridas e suas Folhas


Alguns dos tipos de folhas de batata doce
que tenho em casa.
Sim, vamos falar de batatas doces novamente! Já falei delas diversas vezes aqui na Matos de Comer, e queria falar um pouco mais. Não me canso porque é a minha hortaliça favorita. Come-se as folhas, as raízes. Se faz suco, refrigerante, doce, massa, bolo, biscoito, panqueca, tapioca, cerveja, vinagre, salada, sopa, bolinho, cobertura de bolo... Hum! Me considero o missionário da batata. Onde vou tento convencer as pessoas a provarem as folhas, porque são muito saborosas, e totalmente negligenciadas - o que faz delas PANC de primeira categoria.

A batata doce é uma planta nativa do Brasil já cultivada pelos índios, possuindo diversas variedades e cores, adaptadas a ambientes ensolarados, sombreados, úmidos, secos. Ela é um alimento que nasce de norte a sul no país. De nome científico Ipomoea batatas, existem inúmeras variedades. Um documento da Embrapa cita que, em seu germoplasma ativo, existem mais de 324 variedades e cultivares catalogados. Daria para comer praticamente um tipo por dia, sem repetir nenhum, por um ano! 

As folhas da batata doce soltam um leite branco, o que para muitos é um sinal de veneno, perigo. No caso, elas cruas de fato são tóxicas, mas cozidas tornam-se perfeitamente seguras. Fico imaginando o quanto de ramas são jogadas fora, alimento de grande qualidade desperdiçado. Poderia ajudar tanta gente que ainda passa fome no país e ainda não conhece os usos das folhas. Na gastronomia, potencial infinito para rechear pães, tortas, para sopas, cremes, purês, risotos. Com sua textura macia, sabor delicado e paladar agradável, pode substituir praticamente qualquer hortaliça refogada, como escarola, couve ou espinafre.

Propriedades nutricionais

As raízes são nutritivas, de baixo valor glicêmico, ricas em fibras e minerais. Mas eu quero mesmo é falar das folhas. A literatura relata muitas propriedades das folhas da batata doce, sendo considerado uma planta de alto valor nutricional e medicinal. Eu diria que é quase uma super-planta. As folhas são riquíssimas  em polifenóis (a saber: ácido caféico, ácido clorogênico, ácido 3,4-di-O-caffeoylquinico,  ácido 3,5-di-O-caffeoylquinico, ácido 4,5-di-O-caffeoylquinico e  ácido 3,4,5-tri-O-caffeoylquinico) substâncias antioxidantes que combatem o envelhecimento precoce e tem comprovado efeito na prevenção de vários tipos de câncer e doenças degenerativas. Esses componentes tem diversos benefícios, como atividade antimutagênica, anticâncer, antidiabetes e anti-inflamatória.

As folhas também são ricas em antocianinas, pigmentos que a fazem tolerante à luz intensa, e para nossa saúde trazem diversos benefícios. Foram encontrados mais de 15 variedades de compostos dessa categoria nas folhas da batata-doce, sendo os principais tipos cianidina acíclica e peonidinas. Falando em vitaminas, é rica em vitamina E, vitamina K, complexo B, ferro, cálcio, zinco, cobre, e de quebra, mais proteínas que a couve e o espinafre. Não disse que era um super-alimento?

O sabor é idêntico ao de hortaliças que estamos acostumados, como espinafre e a taioba. É delicioso e vai bem em qualquer prato salgado. Em bolos e doces dá uma linda coloração esverdeada. Para consumir as folhas, elas devem ser cozidas ou branqueadas, nunca cruas, porque podem irritar a garganta e paralisar a digestão completamente, levando a quadros graves de vomito e diarreia. Cozidas, porém, são perfeitamente seguras e vastamente recomendadas pela literatura como um alimento fortificando, nutritivo e promotor da saúde. Substitui a couve, cortada finamente, acompanhando farofa, arroz, feijão e feijoada. Tente e depois me conte.

As variedades

Eu estava com bastante informações sobre as cores e variedades de batatas que encontrei pelo caminho. Existem folhas de absolutamente todas as formas. Fiz um levantamento e tenho ao menos quinze variedades, algumas com folhagens totalmente diferentes e batatas parecidas, outras com batatas diferentes e folhagens idênticas. Elas crescem felizes e as ramas se misturam, se sobrepõe, e cada colheita é uma surpresa. 

As batatas doces do mercado, as mais comuns, cada vez que coloco para germinar encontro novas variedades de folhas. Acho que virei um colecionador de batatas doce, embora não faça muita questão de saber quem é quem, apenas vou plantando. São muito bonitas.



Das cores de polpa, as mais comuns são a da casca rosa e polpa branca, casca branca e polpa branca, casca roxa e polpa roxa, casca rosa e polpa salmão e casca laranja e polpa laranja. São essas que encontramos no mercado. Outras, eu colhi pela folhagem, porque geram batatas brancas comuns, apesar da folhagem colorida.

Trouxe de Paranapiacaba uma batata com as ramas vermelhas, folhas gigantes e em forma de coração, que são especialmente saborosas quando refogadas, embora percam a cor marrom. A batata, por usa vez, é branca e pequena - é uma batata que dá mais folha que raiz. Eu achei que fosse roxa, mas não é. E gosta de ambiente úmido e mais sombreado que as demais, caso contrário, nas horas mais quentes, murcha rapidamente.

Batata de Paranapiacaba, de ramas roxas e batata branca.

A batata laranja e a roxa possuem ramas verdes e folhas verdes, bastante parecidas entre si. Notei que a batata roxa possui a rama um tanto peluda, mais peluda que as demais batatas, especialmente nos brotos. Fora isso, se camufla e oculta sobre um aspecto comum, trazendo surpresa na hora da colheita. 

O sabor da batata roxa é bem distinto das demais, aromático e adocicado, e sua textura mais aguada. Me lembra doce, tem algo de mirtilo ou amora, talvez dado pelo pigmento roxo, nutritivo e antioxidante. Além de deixar qualquer prato roxo, dá um toque especial para doces. Gosto de fazer cobertura de bolo - verde - com ela.

Batata roxa, da comprida.

Diferença entre a batata roxa e a branca cozidas.

Batata roxa, da redonda.
O purê cremoso vira cobertura do bolo verde de espinafre.

A batata laranja ou salmão, às vezes chamada de "cenoura", é a mais rara e incomum delas. Não sei se passa por algum tratamento especial, mas demora muito tempo pra brotar. Tive que esperar muitos meses até que a única sobrevivente soltasse ramas. Das muitas que guardei, essa foi a única que não apodreceu. As ramas crescem pouco e lentamente, e ela é exigente em relação à fertilidade. Tenho dificuldade de multiplicá-la, muitas vezes a muda morre de tão delicada que é. Seu sabor lembra cenoura e abóbora, por causa dos carotenoides que compartilham entre si - é a mais rica de todas em vitamina A. Muito aguada, não se presta para massas, mas rende purês excelentes e fica docinha assada.

Batata doce laranja da polpa salmão

Mix de batatas. Note a cor da batata roxa e da laranja.
Tenho uma batata doce muito produtiva, trazida da Paraíba, que possui as folhas finas e recortadas, e ela é relativamente comum aqui em São Paulo. Produz muitas ramas, de crescimento indeterminado, e tolera situações de seca extrema. Produz batatas grandes, duras e farinhentas, ideais para fazer massas e nhoque. As folhas são ligeiramente amargas e escurecem com facilidade. Suas folhas recortadas reduzem seu gasto de água, fazendo dela uma boa opção para cultivo em ambientes muito secos. Notei que ela não se desenvolve bem em solo "vermelho", aquele argiloso de barranco. Adora pleno sol, forma moitas enormes. Há uma variedade dela, dada pela amiga Fabíola Donadello, que é arbustiva, formando touceiras de até 30 centímetros e de crescimento compacto. Ainda não colhi.

A batata da Paraíba, de folhas finas e crescimento forte.
As maiores batatas que já colhi na vida.

A batata dada pela Fabíola, fica super-compacta.
Há ainda ramas que ganhei trazidas dos EUA de batatas ornamentais. Uma tem as ramas verde limão cintilante, uma cor quase berrante. Ela gosta de locais mais úmidos e sombreados, e tem as ramas curtas e compactas. Outra variedade possui as ramas quase negras, recortadas, ficando numa cor vinho muito profundo quando em sol pleno. Ideais para vasos e bordaduras, usadas como ornamentais mundo afora. Procure no google "ornamental sweet potato" para ter ideia de quantas variedades lindas existem. Um potencial sem fim para jardins comestíveis e paisagismo produtivo. Inspire-se!

Batatas ornamentais: limão e negra.

Batata-limão

Batata das folhas negras
E você, conhece algum outro tipo de batata doce? Tem alguma outra variedade? Sugestões de uso? Conte pra nós aqui nos comentários :)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Outras Trapoerabas: Trapoeraba-branca

Trapoeraba-branca (Tradescantia fluminensis)
Por fim, a última trapoeraba comum que ainda não falamos é a minha preferida: a trapoeraba-branca (Tradescantia fluminensis). Essa plantinha é típica de áreas altamente sombreadas, basicamente crescendo no chão de matas úmidas e densas. Como todas as trapoerabas, gosta de umidade, não tolera sol pleno e cresce muito rápido. Para saber mais sobre seu mecanismo de dispersão, clique aqui.  

Como característica marcante, ela possui pouco ou nenhum pelo, sendo brilhantes e com folhas pequenas.  Aliás, das trapoerabas, talvez seja a que possui as folhas mais lustrosas. O intervalo entre as folhas é curto, e elas são quase sobrepostas. Sua flor possui três pétalas na cor branca. Há uma espécie similar, a Tradescantia umbraculífera, da qual não sei afirmar se é comestível, que produz grupos de muitas flores, enquanto a trapoeraba-branca possui de uma a três flores e nasce em locais menos sombreados. 

Folhas com poucos pelos e bem brilhantes.
Forma tapetes na mata úmida. Folhas quase
sobrepostas, com pouco intervalo entre os nós.
Além da textura lisa e sem pelinhos incômodos, ela também possui um talo macio o suficiente para ser consumido junto com as folhas. Como nunca tenho quantidade suficiente para consumí-la pura, costumo colocá-la para complementar receitas como refogados, omelete, cozidos, purês, risotos e bolinhos. Algumas vezes ela pode ser ligeiramente amarga, portanto sempre consuma branqueada. Como as demais trapoerabas, se picada excessivamente solta mucilagem como a ora-pro-nobis - eu prefiro as folhas inteiras. O sabor é suave, delicado e quase neutro, lembrando de longe o espinafre.

Em vaso no sol ela fica um tanto espichada.
Como as demais plantas da família, se reproduz com extrema facilidade, por ramas, hastes e pedaços de raiz. Se não quiser excesso de trapoerabas na sua casa, plante em vaso e não no chão, porque ela é invasiva e vai dominar seu quintal, jardim ou horta. Um vaso com solo fértil em local sombreado é suficiente, pode ser dentro de casa, próximo a uma janela. Ela cresce a olhos vistos. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Outra Trapoerabas: Trapoeraba-rosa



Trapoeraba-rosa
A trapoeraba-rosa (Tripogandra diurética) é mais uma plantinha nativa muito comum em áreas sombreadas e úmidas. É uma PANC pouco exigente e que se espalha com facilidade. É comum de beira de córregos, matas, bosques e em beira de trilhas, sendo facilmente reconhecida por suas flores rosadas agrupadas na ponta das ramas. Ao contrário de outras trapoerabas, e assim como a trapoeraba-azul, ela não é rasteira, mas prostrada e com ramos eretos, chegando a 40 cm de altura.

Aqui é São Paulo é bem comum no Horto Florestal e no Parque Estadual da Serra da Cantareira, especialmente próximo aos córregos do núcleo do Engordador. Se tiver curiosidade, aproveite para fazer uma visita e fazer um reconhecimento na área. 


Flores rosadas e com três pétalas. Foto no Horto Florestal.

Das trapoerabas, essa é uma das que mais gosta de umidade. Típica de brejos, a trapoeraba-rosa gosta de umidade do ar alta e tolera solos literalmente pantanosos e encharcados. É uma hortaliça com sabor comum a todas as trapoerabas, e suas lindas flores rosadas podem ser consumidas sem problemas. Como vantagem, possui poucos pelos nas folhas e ramos, sendo palatável até mesmo crua, em pequenas quantidades.

Para consumir a trapoeraba-rosa use folhas jovens e tenras, aproveitando a ponta dos ramos. Pode ser usada como complemento a pratos, dando cor, sabor e nutrientes. Particularmente gosto de colocá-la sem picar em pratos como "macarrão primavera", em ensopados e até mesmo para fazer purê verde. Seu sabor, suave, permite que entre em diversos pratos doces e salgados, como pães, massas, molhos e para colorir alimentos. Também pode ser usada para alimentar roedores, aves, galinhas e até porquinho-da-índia. 


Seus usos populares, na forma de chá, são usadas como diurética, para tratar reumatismo e leucorréia.

A trapoeraba-rosa uma planta extremamente invasiva e considerada daninha nas culturas de arroz, café e banana, assim como em culturas irrigadas. Sua multiplicação se dá por estolões subterrâneos assim como por fragmentos de caule. É uma bela planta ornamental para se ter em vaso, podendo ser consumida de de tempos em tempos para que não fique muito grande. Não tolera correntes de vendo secas, solo pobre ou seco.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Caferana, Falso-guaraná

A fruta e sua polpa

Ultima chamada para a colheita da caferana! Ao menos aqui em São Paulo, as árvores estavam carregadinhas até algumas semanas atrás, e eu bobeei. Até que me deparei com uma árvore linda no Butantã, aqui em São Paulo, e ao maior estilo maritaca, fiz a festa. Madura, não tinha fruta nenhuma no pé - apesar da cor alaranjada, são duras, verdolengas e levemente amargas. Não dá tempo - os pássaros e morcegos devoram assim que a fruta amadurece. Quando vermelha indica que está de fato madura, atraindo magicamente uma nuvem de maritacas degustadoras de caferana.

A caferana é chamada de falso-guaraná, acredito que pela semelhança das folhas. Para mim, a caferana me parece mais com as folhas do cafeeiro. Eu tenho uma teoria que sei que está errada, mas sou apegado a algumas idéias. Acredito que chama-se caferana porque "rana" em tupi significa "parecido com". Caferana, a parecida com o café. Mas não tinha café aqui pra índio dar nome, então entenda que essa é uma viagem só na minha cabeça. E se souber uma explicação para o nome, me conte.

Fruta madura no pé é irresistível para as aves.

O chão forrado de sementes.
Por acaso, não achei nenhuma muda por perto.

A colheita foi boa - apenas frutos imaturos.
É uma frutinha nativa dos andes, pouco comum aqui no Brasil, mas perfeitamente aclimatada. Se adaptou bem, embora não seja uma planta invasiva, é bem prolífica, cresce rápido e é uma boa fruta para ter no quintal.  Seu formato é característico, com um biquinho, o tamanho é algo menor que uma noz e possui um par de caroços brancos dentro. A casca é uma película fina que some na boca, deveras, porque os caroços são grandes e toda polpa deve ser aproveitada. 

Os frutos maduros, vermelhos, são molengos e tem textura de extrato de tomate. Eu sei, a descrição não agrada muito. O sabor lembra amendoim, por isso lhe foi dado o nome de peanut butter fruit. E você aí, tente imaginar extrato de tomate com gosto de amendoim...

Elas amadurecem de uma hora para outra. A cada 12h ela mudam de cor completamente e se você não acompanhar todo dia a sua colheita, elas estragam. Quando imaturas, são duras e alaranjadas, mas maduras ficam vermelhas e moles feito caqui. Aliás, não empilhe, ou o peso das de cima vão esmagar as que ficarem abaixo.
De noite, metade estava verde.

Ao amanhecer, já rearranjadas, estavam todas
maduras, perfumadas e molengas.

Os usos dela são grandes, porque é uma fruta de polpa cremosa que rende bons sucos, geleias, mousses e até mesmo balas. Estou testando doce de corte, mas preciso de uma quantidade maior. Por enquanto, dá para passar no pão com um pouco de mel, porque a fruta se desfaz ao menor toque e pode ser espalhada feito manteiga no pão. A cor vermelha, como esperado, indica um teor altíssimo de vitaminas do complexo A e C, além de compostos antioxidantes, tornando a caferana uma opção extremamente saudável para ser incluída na dieta.

Para comer in natura o sabor é para poucos, não é muito doce, a textura é pesada na boca, não tem absolutamente nada de acidez e o sabor lembra amendoim cru. É o primo sem-graça do caqui. Mas cozida, processada, vira iguaria, casando perfeitamente com pão e com massas, seja feita como geleia ou pasme, como molho de tomate. Sim, acompanhada dos temperos certos, rende um molho escarlate saboroso, cremoso e intrigante.

Para extrair a polpa, use uma peneira de plástico ou metal, coloque várias frutas e aperte com o punho, em movimentos circulares, empurrando a polpa com os dedos - ela passa sem resistência. Para grandes quantidades pode ser um tanto tedioso, então é preciso desenvolver um sistema para processamento da polpa em escala comercial. Mas em escala doméstica em meia hora dá para processar meio quilo de fruta, o que significa muuuuita fruta.



Lá em casa eu tinha uma árvore de caferana, mas ela foi cortada para dar lugar à horta. Eu não sabia que se chamava caferana - me foi vendida como guaraná e para mim, aqueles frutos polposos nunca tiveram uso. Curiosamente, era atacada toda temporada por lagartas que viravam lindas borboletas azuis, então mesmo sendo um não-guaraná, ficou lá para as borboletas. Mas ampliamos a horta e ela foi removida. Ah, arrependimento! Uma árvore rara em casa, mas sabe como são as pessoas com expectativas frustradas... 

Se encontrar uma caferana dando sopa por aí, salve as sementes e faça mudas, que crescem rápido, são altamente ornamentais e decorativas. E se não gostar dos frutos, sejam crus ou processados, deixe para os pássaros, que aparentemente achar a caferana a coisa mais maravilhosa que há. Na natureza nada se perde! :)

Vamos plantar caferana nas praças!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Capiçoba


Folhas da capiçoba Erechtites valerianifolius. 

Capiçoba. Essa é uma PANC, considerada ruderal ou espontânea, um tanto incomum em São Paulo. Perto da serralha, do caruru ou da major gomes, praticamente uma raridade. Pessoalmente levei um tempo até encontrar minha primeira capiçoba. Descobri que ela gosta de solos férteis, ricos em matéria orgânica e úmidos. Ou seja, não vai nascer em qualquer terrinha por aí não. 

Muito famosa no interior, nasce comumente em hortas nos períodos mais quentes e chuvosos, aproveitando a umidade do solo e um local naturalmente fértil. Se é verdura e nasce sozinha, vamos come-la!

Existem dois tipos de capiçoba, os dois comestíveis, embora um deles com ressalvas. O mais comum é a espécie Erechtites valerianifolius, de folhas compostas, cujos folíolos são separados um dos outros. É uma planta herbácea, de crescimento rápido e flores rosadas, atingindo mais de um metro de altura. Suas folhas são aromáticas e muito saborosas, lembrando um tanto a rúcula. Pra espécie E. hieracifolius recomenda-se o consumo branqueada ou cozida. Pode ser cortada antes da floração que volta a rebrotar mais uma ou duas vezes - não arranque!

O aroma dá pra sentir na mão, apertando uma folha entre os dedos - cheiro de verdura temperada, gostosa.

Capiçoba gosta de locais ligeiramente sombreados,
com pouco vento e mais úmidos.
Outra espécie comum é a capiçoba-roxa, de nome Erechtites hieraciifolius. Essa planta tem porte baixo, por volta de meio metro, e folhas verdes ou mais comumente, avermelhadas. As flores são terminais e na cor creme ou amarela. Pode ser diferenciada da outra capiçoba pelas folhas onduladas e menos repartidas em folíolos e pela floração creme ou amarela. As variedades de folhas avermelhadas nascem mais ao sol e as de folhas verdes, mais à sombra. Ao que parece, não é uma adaptação ao sol, e sim a diferenciação em subespécies. Tem um bom teor de proteínas e uma altíssima quantidade de ferro, zinco e fósforo. O sabor de ambas é parecido.

Note as folhas, que podem ser verdes,
em formato característico e mais irregulares.
Erechtites hieraciifolius.

Flores da capiçoba-vermelha, amarelas ou creme.

Capiçoba vermelha, Erechtites hieraciifolius.
Antes da floração.
Erechtites hieraciifolius na variedade verde.Note a forma das folhas.
Deve ser consumida com moderação, porque essa espécie tem poucos estudos e há altas chances de que tenha pirrolizidinas, as mesmas substâncias presentes na falsa-emília e no senecio, que são altamente tóxicas ao fígado e podem causar fotossensibilização. Na dúvida, prefira a espécie de flores rosadas (E. valerianifolius), de uso consolidado na literatura, consuma no período de preferência antes da floração e com moderação. 

Como sugestão de consumo, ficam muito saborosas refogadas acompanhando pratos do dia-a-dia, assim como fritas em bolinhos, usadas como condimento para sopas e escondidinhos. Usadas tradicionalmente acompanhando carne de galinha, de porco e de boi, assim como a ora-pro-nobis. Recomenda-se branquear antes e descarta a água, e assim usar a verdura já branqueada para cozinhas junto com os demais ingredientes. Na salada, fica deliciosa, picante e aromática, um misto de salsa e rúcula.

Para plantar, após a floração colete as minúsculas sementes e jogue em local definitivo, sem regar. Escolha ambientes úmidos, sem sol intenso, de boa fertilidade e sem forte fluxo de vento, como próximo a muros e paredes.
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