segunda-feira, 28 de julho de 2014

Hortaliças hibernando: Rizomas úteis

O outono faz a horta parecer bem maior. Boa parte das plantas não fica tão grande, cresce lentamente. As alfaces estão pequenas, as rúculas também. Ainda, a maior parte das raízes está hibernando: tupinambo, batata, gengibre, biri, araruta, cúrcuma, mangarito, zedoária. Todas elas perdem as folhas e somem na terra. Algumas tive até mesmo que colocar uma placa, porque já plantei coisa em cima! 

O tupinambo se come cozido, como cenoura. O gengibre e a cúrcuma, usa-se como tempero. A araruta e o biri se usa para fazer farinha, retirando o amido.

Todos eles, essa época do ano, podem ser replantados: é a hora de multiplicar. Assim que as folhas secaram, cave delicadamente, remova os tubérculos, rizomas e batatas individuais e replante. Claro, você pode não replantar, a planta continua crescendo, mas lentamente. Plantas recém plantadas crescem melhor, e ano que vem, você terá multiplicado sua colheita pelo numero de plantas novas que foram replantadas.

Escolha um local com as condições mais adequadas: exceto o tupinambo, batata e batata doce, todos os parentes do gengibre (cúrcuma, gengibre, zedoária, galanga, lírio do brejo) e da araruta (araruta, biri) gostam de locais úmidos, férteis e ligeiramente sombreado. Adicione matéria orgânica, revolva bem, plante e umedeça. Enquanto não tem folhas, as regas são só para não esturricar. Assim que brotar, volte a regar normalmente.

Aproveitando a colheita e replantio, tirei algumas fotos. Nessa primeira, temos as raízes de araruta, já rebrotando. A araruta fica grandinha, até. Do mesmo tamanho que o açafrão.


Ararutas, ou Marantha arundinacea: da terra para a terra
Nova casa para Araruta: Canteiro soerguido, terra de composteira, adubo do galinheiro do vizinho e cobertura vegetal de folhas secas.
Eu sei, batatas são de outro gênero. Mas o assunto é pertinente. Essas batatas roxas tem o miolo bem branco com um halo roxo, e são muito farinhentas, pesadonas, ótimas pra fazer gnocchi e purê. A planta é média e muito arroxeada, de folhas mais miúdas, muito parecidas com as do tomate, só que escuras. Plantei há um tempo e esqueci. Quebrei a cabeça para descobrir o que era. Quando fui colher algumas coisas do entorno, grata supresa: batatas roxas, e suas batatinhas, já brotando, indo pro novo canteiro.

Batatonas e batatinhas, das roxas.
Os Biris, ou falsa-araruta, quando hibernam são os que mais fazem diferença. Nos ultimos anos não colhi e a planta formou uma touceira muito grande. Com suas folhonas avermelhadas, ocupava mais de um metro quadrado por planta, com mais de 2 metros de altura. Tive que passá-la para um lugar que crescesse livremente. 

Biri, ou Canna edulis, rebrotando lentamente no inverno frio.

Para dar uma idéia de proporção. Da esquerda pra direita: Gengibre, Cúrcuma, Araruta e Biri.

Até a próxima!


sábado, 26 de julho de 2014

Crepe-do-Japão. Verdura de Inverno.

Está aí uma verdurinha que quase ninguém conhece. Ela aparece mais essa época do ano, quando as temperaturas estão mais amenas. No calor, em geral, flore menos e fica na forma vegetativa, parecida com um pezinho de alface. Aliás, é uma planta correlata, e eu sinto nela um gosto suave de alface.

O crepe-do-japão tem esse nome porque foi descrito primeiramente na Ásia (Crepis japonica). Em inglês, é chamado de Hawksbeard, ou seja, barba de falcão. Eu nunca vi um falcão de perto, muito menos sei se ele lá tem barba. Como acho que o nome Crepe do Japão lembra bastante seu nome científico, acho que fica mais fácil de não confudir. Já pertenceu aos gêneros Youngia, Prenanthes e Chondrilla, mas parece que chegaram a um consenso.

O gênero Crepis possui mais de 100 espécies, mas a única que encontrei aqui no Brasil foi a Crepis japonica. Mas são todas comestíveis:  Crepis setosa, Crepis runcinata, Crepis glauca, Crepis capilaris, Crepis bursifolia, Crepis vesicaria e Crepis tectorum. Algumas com flores menores e mais delicadas, outras bem parecidas com o dente-de-leão, de flores enormes e amarelas.

O nome Crepis vem primeiro do Grego, Krepis, com uma tradução obscura. Em algumas fontes, vi que significa "Sapato", uma referência muito imaginativa ao formato das sementes. Eu pessoalmente não imagino um sapato ali, talvez por não saber o que os gregos esperavam de um sapado. Então, achei outra referência, onde no Latim crepis já era referido a um tecido macio, encrespado, amassado. Aí sim faz sentido: basta imaginar os tecidos de crepe, com sua textura característica. As folhas da Crepe-do-Japão são assim: parecem uma folha de Dente de Leão amassadinhas.

Elas nascem sempre em grupos, porque as sementes não voam muito longe e sempre caem pertinho uma das outras, na proximidades. Agora no outono-inverno, você vai ver suas florezinhas amarelas de 1cm por toda parte. Em geral, sempre varias plantas juntas, formando um canteiro de Crepes.

O sabor? Lembra alface, almeirão. Às vezes, um pouco amarga, mas em geral, muito parecida com a alface. Não consegui encontrar estudos sobre a Crepis, seu valor nutricional. Mas extrapolando, imagino que seja parecida com a da alface e do almeirão.

Gostam de locais com pouca perturbação, solos um pouco mais férteis e certa umidade. Em geral, gostam de nascer próximas a paredes, muros e blocos de pedra, que conservam mais a umidade. Pare e repare!

Todas parecidas! De cima para baixo, sentido horário: chicória, dente de leão, alface e almeirão.

As flores da Crepis japonica.

GUIA DE IDENTIFICAÇÃO
Crepis japonica. Porte herbáceo em forma de roseta, ereto, anual, tenra, leitosa, de caule liso, até 30cm de altura. Flor parecida com a do dente-de-leão, da alface e do almeirão. Sementes pequenas, aladas, escuras, agrupadas como as do dente-de-leão. Folhas: oblongas, macias, enrugadas e encaracoladas. Raíz principal pivotante, profunda.

LOCAL DE OCORRÊNCIA
Locais úmidos, sombreados ou ensolarados, de pouca perturbação. Próxima a muros, paredes, hortas, sementeiras.

MODO DE PREPARAÇÃO
Cruas ou cozidas. Saladas, ensopados, tortas, bolinhos, sucos verdes, refogadas.

Alimentos em outras formas: Grão de Bico

Dia desses fui fazer uma receita de hommus, e alguns dos grãos de bico estavam bichados, meio feios. Separei, e espetei na horta. Cresceram bem, apesar do frio. Agora estão na horta, ajudando a fixar nitrogênio e fazer sombra pras mudinhas de verdura.

Agora me fala, você já tinha visto antes a flor do grão de bico? Sabia que ela era branquinha branquinha? Sabia que só nasce um grão por vagem? Sabia que as folhas eram assim, arredondadinhas, serrilhadas? Que eram peludinhas, macias? Que a planta é um arbusto, e não uma trepadeira?

Eu não sabia. Mas estou adorando.




quarta-feira, 23 de julho de 2014

Tem flor nesse mato: Tagetes Silvestre

Não sei quando foi a primeira vez que apareceu essa planta lá em casa, nunca foi plantada. Só sei que ela é onipresente em qualquer canto que o cortador de grama não chega. Essa é uma flor do gênero do do cravo de defunto, ou tagetes.  A espécie é Tagetes minutifolia, parente das variedades cultivadas. Porém, de porte grande e flores pequenas, muitas.

A planta é muito perfumada. O cheiro é forte, marcante: ou gosta, ou odeia. Mas assim como repele alguns, é uma planta muito útil para repelir pragas da horta.

 Como eu mantenho alguns matinhos comestíveis crescendo livres por aí, alguns deles podem ser hospedeiros de algumas praguinhas, como pulgões e moscas brancas. Onde nasce essa tagetes nunca tem inseto danoso por perto, só borboletas. Aliás, borboletas e abelhas adoram.

De crescimento rápido, ela gosta de dias mais longos e calor, virando um arbustão em poucas semanas. Depois que acabam as flores, secam e sobram dezenas de sementinhas parecidas com o picão, mas que não grudam na roupa. Já no inverno, crescem muito pouco e florem pequenininhas.

Tentei comer as flores e achei um tanto amargas. Existem algumas tagetes comestíveis, como a "Tagetes lucida", uma erva da culinária mexicana. Essa também é comestível - folhas aromáticas como tempero e as flores para chá. O chá fica com um sabor que lembra bergamota, bem amarelinho. 

Dizem que ela é repelente de nematóides, aqueles bichinhos que atacam raízes, especialmente batata, batata doce e tupinambo. Talvez seja uma boa solução plantar próximo, tentarei na próxima safra.

É uma planta muito rustica, que tolera condições de solo muito seco e pedregulhento, nascendo bonita até na época da estiagem.

Eu não me dou ao trabalho de plantá-la. Apenas arranco o pé pela raiz, viro de ponta cabeça e chacoalho, as sementes saem facilmente dos copinhos e caem no chão.

A única coisa que essa planta não gosta é de sombra nem de ter as folhas molhadas. Se o tempo estiver chuvoso demais e muito quente, as folhas são tomadas por fungos, ficam esbranquiçadas e a planta seca. Continua florindo, mas fica feia.

Separei um pouco de cada parte da planta pra você poder imaginar o tamanho de cada uma, assim como poder identificá-las por aí.

E se souber algum outro uso, me conte!

Até a próxima!

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Batatas Doces Parte 2: As formas

Você diria que essas duas folhas pertencem a plantas da mesma espécie?


Se eu te disser que sim, você acredita? As duas são folhas de batata-doce. Existem diversas variedades de folhagens de batata doce. Em países onde ela é menos consumida, na Europa, chegam a existir variedades ornamentais, cultivadas pela beleza da folhagem.

Aqui no Brasil, a batata doce de casca rosa, do mercado, de todos os lugares que eu comprei e plantei, as folhas são iguais a essa em forma de coração. As de batata doce de casca branca dão folhas mais serrilhadas, pelo que percebi.

Essa da folha fininha, que parece aquela folha ilegal que se usa pra fumar (risos), eu encontrei plantada num barranco da estrada. Eram três moitas, uma grandona e duas pequenas. Deve ser de algum resto de horta improvisada, onde tudo pereceu na estiagem, e ela se deu bem.

Note como o solo está seco. Fazia exatamente 32 dias que não chovia na região até o momento da foto. Provavelmente ninguém para o carro lá para regá-la, então, ela se vira. Não colhi a coitada, mas imagino que as batatas estejam bem fundas, e provavelmente bem minguadas, doando toda energia pras folhas. Cada semana que eu passo lá a moita está maior. Linda!

As ramas dessa variedade, com poucas semanas de vida.
Ah, mas eu que não sou bobo nem nada, já estava de zóião naquelas ramas. Passei no dia seguinte para fazer algumas mudas, e claro, aproveitar as folhas. Como está bem seco o tempo, tirei a maior parte das folhas das ramas, deixando só uma folha por nó, e algumas no broto. Assim, ela precisa de menos água e desidrata menos.

As folhas colhidas.
Cada rama compridona divide-se em segmentos pequenininhos, mantendo um nó com um broto em cada uma. Na sequência, ficam todas imersas em água pra criar raízes. Lembrar só de trocar a água todos os dias. É muito rápido. Em menos de 3 dias já haverão raízes nas mais apressadinhas, em até 6 dias todas já enraizarão.

E rendem muito. Três ramas de meio metro cada uma deram 45 mudas. Plantei batata por toda parte. Espere a época da colheita que você vai se fartar de escutar sobre elas!

Note como a rama principal, foi dividida na base, mantendo um nó com um broto.

Fomos vorazes e esqueci de fotografar. Foram lavadas, picadas e viraram recheio de pastel junto com ricota.

As ramas, já colocadas na água.

Receita

Recheio simples de torta ou pastel com folhas de batata doce

3 punhados de folha de batata doce, de qualquer tipo
1/2 cebola picada
200gr ricota fresca ou queijo branco, esfarelados
100gr provolone, picado finamente
1 col sopa azeitona verde e preta, picadas
azeite, sal e orégano a gosto

Pique a cebola em cubinhos, doure no azeite. Adicione as folhas picadas finamente, refogue por uns 3 minutos. Adicione 3 colheres de água e mexa cuidadosamente até secar a água e as folhas estarem cozidas. Adicione a ricota e refogue por mais alguns instantes. Acerte o sal, o azeite e o orégano. Na hora de rechear algum pastel ou torta, adicione o provolone e misture bem.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sorte na Horta: Trevos, Vários

(Texto atualizado em 01/09/2015)

Quantos tipos de trevo você conhece? O da sorte tem quatro folhas, o comum tem três, certo? Mas quantos tipos de trevos de três folhas existem?

Na horta aqui de casa, nunca tinha reparado nesses trevinhos. Como não dão muita flor, nem ytenho o hábito de comer, já ia arrancando. Nunca reparei nas suas sutilezas. As folhinhas triangulares de uns, arredondadas de outros. Uns com manchas brancas, outros verdes bem clarinhos. Alguns com flores amarelas pequenas, outros com flores rosas vistosas. Viu que lindo?

Confesso que sou péssimo para identificar trevos. Na minha ultima tentativa, praticamente desisti. Então conto desde já que não sei que espécies são essas.

Independente do nome, são trevos! Já parou pra pensar na diversidade de trevos que temos? De folhas lisas, peludas, verdes, roxas, três folhas, quatro folhas, rendondos, triangulares, touceiros, rasteiros.... E você aí achando que só existiam dois tipos de trevo: o de 3 e o de 4 folhas.

De comer, pode, desde que em pequena quantidade. Ricos em ácido oxálico, são tóxicos se consumidos em excesso. Aliás, é esse o ácido que dá o sabor azedo, e seu nome caipira: azedinha. As folhas podem ser usadas para geleia, processados em um suco, fervidos até reduzir e adicionado de açúcar.

Se for consumir, prefira em pequenas quantidades, na salada, e evite no suco verde, que requer grandes quantidades. Ele também tem propriedades anticoagulantes, então atenção redobrada. Assim como a carambola, deve ser consumido esporadicamente em porções pequenas por quem sofre problemas renais.

Vantagens de ter trevo na horta? Não sei. São bonitos, as folhas protegem o solo descoberto e o mantém mais fresco, no verão. Não posso dizer que são um indicativo de solo bom, porque nascem em qualquer lugar, bueiros, calhas, buracos na parede, trincas na calçada, desde que úmido e não muito quente. 

Outra vantagem é que eles inibem o crescimento de outras plantas. Você pode deixar eles longe das suas verduras, mas naquele canto desprotegido da horta, onde só nascem matinhos, ele exerce um controle populacional, como no caso da equinácea (texto clicando aqui).

De qualquer forma, as minhas oxalis ficam lá por mais um tempo. Veja só, quanta diversidade pra um simples trevo!




E você, que trevos nascem no seu jardim?

Até a próxima!

terça-feira, 15 de julho de 2014

Batatas Doces e uma nova paisagem na janela

As plantas nascendo na janela.
Na fruteira de casa sempre ficam alguns legumes sobrando. Um inhame que não coube na panela, um batata doce comprada por engano, um gengibre que ficou fibroso, uma batata-inglesa muito verde... E elas vão se acumulando na cozinha.

Dia desses, resolvi dar um novo destino pras batatas-doce. Elas são muito fáceis de cuidar e as folhas são muito ornamentais. No mais, são muito resistentes a doenças, e EXTREMAMENTE resistentes à seca.

Se não tiver onde plantar, um canteiro, plante em vasos. Ela fica linda, e as folhas são comestíveis. Então, mesmo que você não tenha a intenção de colher batatas, verduras você terá. E se são boas? Pra falar a verdade, são as minhas preferidas. Uma mistura de batata doce com espinafre. Refogadas, uma delícia no arroz.

Batata doce brotando, na areia úmida.
 Plantei na minha janela, e veja só. Uma floresta de batata doce.

E não pense que é monótono. As batatas doces, raízes, podem ser roxas, amarelas, brancas ou de pele rosada. As folhas, claro, seguem a mesma variabilidade - muitas formas e cores diferentes.

É só esperar brotar e colocar na água. Ir trocando a água todo dia. Assim que estiver com um palmo de altura, tire a rama e coloque na água.

Em 2 dias enraíza. Basta plantar na terra. Facinho facinho!

(...) Passaram 3 semanas e eu esqueci uma muda mum vasinho na minha janela. A água foi secando, secando, e deve ter secado há muitos dias.

Reparei que os brotos ainda estavam verdes.

Peguei os talinhos, cortei a parte morta e plantei na terra. Todos eles voltaram à vida.

Isso me surpreendeu, o quanto ramas conseguiram se virar bem sem água. Água nenhuma. E num sol esturricante de uma janela face norte. Imortais!

Coloquei na água e em uma semana estavam assim, enraizando e soltando novas folhas.


Os brotinhos, recuperados.



segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Doce Mistério do Mamão Oco

Quem tem composteira em casa sabe como é. Vai jogando casca de legumes, folhas que vieram amassadas da feita, restos de frutas... E, claro, sempre algumas sementes junto. 

Na composteira aqui de casa sempre aparecem 3 coisas: quiabo, tomate e mamão. Se dermos sorte, melancias também.

Há uns tempos, salvei uma mudinhas de mamoeiro e plantei pelo terreno. Descobri que o mamoeiro vai melhor em locais úmidos e que tolera sombra parcial. Se o solo for macio então, maravilha! Falo isso porque alguns pés estão com meio metro, outros com muitos metros. Todos plantados no mesmo dia.

Pois bem, o maiorzão de todos eu plantei no meio da horta. Idéia besta, eu sei. Mas ele adorou a adubação e as regas, e produz muito bem. Estava carregadinho. Até que colhemos nosso primeiro mamão.

Só consumimos mamão papaya e formosa aqui em casa. Os frutos, que iam crescendo no pé, estavam com um formato estranho, mais redondo, divididos em gomos bem marcados. Foram amadurecendo e o formato se mantinha. 

Fomos colher, surpresa um. Mesmo maduríssimo, o mamão é firme igual uma goiaba madura. Nada de recheio molengão. Descascar e comer igual maçã, goiaba, aos pedaços, firmes.

E dentro, nada de sementes. Isso mesmo, um buracão oco, de bordas lustrosas. Nada dentro. Nada!

Fiquei intrigado. Conversei com amigos hortelões e fiquei sabendo que isso aconteceu com eles também.

Daí fui investigar a causa. Achei uns artigos sobre mutação e ploidia de mamões. O que aconteceu: meu mamão é um híbrido.

(se você odeia genética, pule os próximos parágrafos)

Um dos pais deveria ser tetraplóide. O que isso quer dizer? Que os cromossomos dele se organizam em quatro cromossomos homólogos. Assim: I I I I.

Cada filho, não é uma mistura de 50% o pai, 50% a mãe?
Então, uma célula reprodutiva (gameta) de um tetraplóide tem I I, dois cromossomos.

O outro pai deveria ser diplóide, cromossomos assim: I I Assim, ele tem apenas dois cromossomos, e seus gametas, um só. Assim.

Quando ocorreu a fertilização, juntou-se um gameta com 2 cromossomos (do pai tetraplóide) e outro com 1 (da mãe diplóide). Ou seja, a nova planta tem 2 + 1 = 3. Assim: I I I.

Ou seja, é um mamão triplóide. Plantas triplóides, por vezes, no desbalanço na produção de gametas, acabam não produzindo sementes. Apesar de produzir frutos, a tendência é que eles não tenham sementes.

Basicamente, foi o que a natureza fez lá em casa. Lá na fecundação da flor que originou o fruto que comemos e cuja semente brotou, deve ter acontecido isso.

Coincidência ou não, só fico triste de não pode replantar esse mamão diferente que nasceu aqui em casa.

E você, já comeu mamão sem sementes?

(Mais informações, pode ler aqui)


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Maria Pretinha, uma berry PANC

Nos tempos que estive viajando descobri que existe uma infinidade de berrys. E nem estou falando da gojiberry, que bizarramente virou uma moda alimentar - quem esqueceu do óleo de coco, da farinha de maracujá e da terrível ração humana?

Lá fora, especialmente em confeitaria, os europeus adoram uma berry. Berry é, por definição, uma fruta carnosa produzida por um único ovário. Isso inclui, botanicamente falando, os abacates, as abóboras e as pimentas. Ou seja, se nos ativermos a nomenclatura científica, as coisas perdem um pouco de sentido prático.

Vamos então mudar a definição para um sentido gastronômico: berry é qualquer fruto carnoso de tamanho pequeno. Daí incluimos as frutas em forma de drupa, as frutas agregadas... E temos framboesa, morango, mirtilo, groselha, amoras...

Das famílias botânicas, especialmente no Hemisfério Norte, temos principalmente Rosaceae (amoras, morangos, framboesas, rosa canina) e Ericaceae (mirtilos, cramberry) e Grossulariaceae (gooseberry, groselhas). A maior parte delas, plantas de clima frio. Aqui no Brasil, e especificamente em São Paulo, vendidas por um preço absurdo (100gr R$15,00).

Tirando o fato de termos uma flora exuberante, dezenas de gêneros científicos e uma enorme biodiversidade, não seria legal termos nossas próprias berries?

Aqui, embora nativa da Ásia, temos a amora de árvore (Morus nigra). Não podemos esquecer das nossas frutinhas do gênero das Mirtáceas: pitanga, cereja do rio grande, jabuticaba, cambucá, cambuci, uvaia, gabiroba, grumixama. E a calabura, uma Muntingiaceae. E nossos coquinhos e palmas, açaí, jerivá, jussara.... Todas, porém, frutos de árvores - o que inviabiliza um pouco quem não tem um quintal muito grande ou quer produzir em pouco tempo.

Tudo isso para dizer que existem duas frutinhas, que seremos chiques chamando de berry, que nascem espontaneamente e crescem muito, muito rápido. Uma dela já foi descoberta pelo mercado, já ficou cara, já ganhou nome estrangeiro - e ficou mais inacessível. Claro, a fisális, conhecida aqui antes como juá-de-capote. E temos várias espécies! Frutas amarelas, alaranjadas, vermelhas, arroxeadas... Cada uma com seu sabor próprio, todas muito lindas e gostosas.

Faça a experiência. Se um dia ganhar uma simples frutinha, tire as sementes e plante. Garanto que você vai ter frutas por um bom tempo, basta replantar.


Flores da Maria Pretinha


Há uma outra berry, que já gosto só pelo nome. "Maria pretinha". As frutinhas da Solanum americanum estão por toda parte. Bolinhas pretinhas presas em cachinhos. Fácil de identificar: parece um pé de pimenta, e as flores parecem de pimenta, de batata, de tomate... Aquele formato clássico do genero "Solanum", inconfundível .É rústica e não precisa de muitos cuidados. Gosta de solo fértil, vai bem em pleno sol ou meia sombra e não é muito exigente quanto à umidade, desde que não fique seca por muito tempo.

Não há dúvidas de que há plantas comestíveis e úteis na família solanaceae. Mas da mesma forma, a maior parte das plantas do grupo são venenosas. Os frutos são comestíveis, mas as folhas, não. Não é uma regra, mas veja: jiló, pimenta, berinjela, pimentão, tomatillo, tomate. Todas frutas comestíveis da família das solanáceas. Nenhuma delas tem as folhas comestíveis. Coincidência? 

A planta tem aparência delicada e as folhas tem um cheiro amargo, ruim. Elas brotam o ano todo, especialmente na primavera, e dão frutos incessantemente. Em geral, nascem em colônias, porque uma semente cai e dá origem a novas plantas nas imediações, e assim vai. Pode chegar a 1m de altura, mas geralmente é mais baixa, com no máximo meio metro. Vale lembrar que é uma planta cosmopolita, e plantas da mesma espécie podem ser ligeiramente distintas entre si.

As frutas são comestíveis, DESDE QUE MADURAS, nunca verdes. Verdes são amargas, ricas em alcalóides e portanto, venenosas. A Maria Pretinha é uma planta fácil de identificar. Contudo, em algumas localidades, pode ser confundida com a erva-moura, Solanum nigrum, e com a Solanum ptycanthum, ambas espécies similares.

A Solanum nigrum é tóxica quando madura, se consumida crua. Porém, diversos autores apontam seu consumo cozida enquanto geléia. Acredito que precise ser muito bem cozida. Em caso de dúvida, se não consegue identificar as espécies, transforme-a em doce, compota, geléia ou xarope que seu consumo será seguro. Por sorte, a Solanum nigrum é menos comum no Brasil, mas possui diversos registros de ocorrência no Sul e Sudeste.

Segundo alguns autores, inclusive o Prof Lin Ming, da UNESP de Botucatu - SP, relata que as folhas da Solanum americanum são consumidas na África, muito bem cozidas, como hortaliça. Recentemente tive a oportunidade de prová-las e são saborosas, mas ainda tenho receio em consumí-las. Como saber o quanto de cozimento é preciso para destruir as toxinas? Na dúvida, evite. Mais sobre relatos de consumo aqui e aqui.


Maria pretinha, numa calçada no bairro da Lapa.
Como diferenciar? Para consumir, a planta precisa atender a TODOS OS CRITÉRIOS A SEGUIR:

Solanum americanum  Solanum nigrum
COMESTÍVEL VENENOSA (crua)
Frutos brilhantes Frutos Opacos
Frutos rajados quando amadurecendo Frutos mudam de cor gradualmente
Frutos ligados num único ponto, que é ligado ao caule Frutos ligados diretamente ao caule, porém próximos entre si
Folhas pouco serrilhadas Folhas muito serrilhadas
Sementes pequenas Sementes médias
De 40 a 110 sementes De 15 a 60 sementes
Folhas verdes na parte inferior Folhas verdes ou avermelhadas
Caule com poucos pelos Caule com muitos pelos
Sépalas não aderem ao fruto Sépalas aderem ao fruto

Maria pretinha. Frutos verdes são salpicados de branco.
As folhas são pouco serrilhadas e parecem de pimenteira.
Os frutos maduros são brilhantes.
 Todos eles são ligados por um cabinho,  unindo-se
num único ponto, ligando-o a planta.


Erva Moura. VENENOSA quando crua, comestível se cozida.
 As folhas são muito serrilhadas.
Os frutos maduros são opacos.
 Todos eles são ligados por um cabinho, mas não se fundem
 num único ponto, igual a um cacho de uvas.
Informações Gastronômicas
  • O sabor não é muito forte na baga crua. Contudo, após ser cozida, o sabor lembra geléia de uva ou mirtilo. Não tem muita pectina, fica uma geléia rala.
  • Doce/suave.
  • Frutos imaturos são amargos e tem gosto de pão mofado.
  • Frutos maduros são doces, pouco ácidos, com gosto suave de amoras.
  • Folhas NÃO são comestíveis.
  • Frutos podem ser usados em bolos, tortas, geléias e vitaminas.

Maria Pretinha, uma berry PANC

Nos tempos que estive viajando descobri que existe uma infinidade de berrys. E nem estou falando da gojiberry, que bizarramente virou uma moda alimentar - quem esqueceu do óleo de coco, da farinha de maracujá e da terrível ração humana?

Lá fora, especialmente em confeitaria, os europeus adoram uma berry. Berry é, por definição, uma fruta carnosa produzida por um único ovário. Isso inclui, botanicamente falando, os abacates, as abóboras e as pimentas. Ou seja, se nos ativermos a nomenclatura científica, as coisas perdem um pouco de sentido prático.

Vamos então mudar a definição para um sentido gastronômico: berry é qualquer fruto carnoso de tamanho pequeno. Daí incluimos as frutas em forma de drupa, as frutas agregadas... E temos framboesa, morango, mirtilo, groselha, amoras...

Das famílias botânicas, especialmente no Hemisfério Norte, temos principalmente Rosaceae (amoras, morangos, framboesas, rosa canina) e Ericaceae (mirtilos, cramberry) e Grossulariaceae (gooseberry, groselhas). A maior parte delas, plantas de clima frio. Aqui no Brasil, e especificamente em São Paulo, vendidas por um preço absurdo (100gr R$15,00).

Tirando o fato de termos uma flora exuberante, dezenas de gêneros científicos e uma enorme biodiversidade, não seria legal termos nossas próprias berries?

Aqui, embora nativa da Ásia, temos a amora de árvore (Morus nigra). Não podemos esquecer das nossas frutinhas do gênero das Mirtáceas: pitanga, cereja do rio grande, jabuticaba, cambucá, cambuci, uvaia, gabiroba, grumixama. E a calabura, uma Muntingiaceae. E nossos coquinhos e palmas, açaí, jerivá, jussara.... Todas, porém, frutos de árvores - o que inviabiliza um pouco quem não tem um quintal muito grande ou quer produzir em pouco tempo.

Tudo isso para dizer que existem duas frutinhas, que seremos chiques chamando de berry, que nascem espontaneamente e crescem muito, muito rápido. Uma dela já foi descoberta pelo mercado, já ficou cara, já ganhou nome estrangeiro - e ficou mais inacessível. Claro, a fisális, conhecida aqui antes como juá-de-capote. E temos várias espécies! Frutas amarelas, alaranjadas, vermelhas, arroxeadas... Cada uma com seu sabor próprio, todas muito lindas e gostosas.

Faça a experiência. Se um dia ganhar uma simples frutinha, tire as sementes e plante. Garanto que você vai ter frutas por um bom tempo, basta replantar.


Flores da Maria Pretinha


Há uma outra berry, que já gosto só pelo nome. "Maria pretinha". As frutinhas da Solanum americanum estão por toda parte. Bolinhas pretinhas presas em cachinhos. Fácil de identificar: parece um pé de pimenta, e as flores parecem de pimenta, de batata, de tomate... Aquele formato clássico do genero "Solanum", inconfundível .É rústica e não precisa de muitos cuidados. Gosta de solo fértil, vai bem em pleno sol ou meia sombra e não é muito exigente quanto à umidade, desde que não fique seca por muito tempo.

Não há dúvidas de que há plantas comestíveis e úteis na família solanaceae. Mas da mesma forma, a maior parte das plantas do grupo são venenosas. Os frutos são comestíveis, mas as folhas, não. Não é uma regra, mas veja: jiló, pimenta, berinjela, pimentão, tomatillo, tomate. Todas frutas comestíveis da família das solanáceas. Nenhuma delas tem as folhas comestíveis. Coincidência? 

A planta tem aparência delicada e as folhas tem um cheiro amargo, ruim. Elas brotam o ano todo, especialmente na primavera, e dão frutos incessantemente. Em geral, nascem em colônias, porque uma semente cai e dá origem a novas plantas nas imediações, e assim vai. Pode chegar a 1m de altura, mas geralmente é mais baixa, com no máximo meio metro. Vale lembrar que é uma planta cosmopolita, e plantas da mesma espécie podem ser ligeiramente distintas entre si.

As frutas são comestíveis, DESDE QUE MADURAS, nunca verdes. Verdes são amargas, ricas em alcalóides e portanto, venenosas. A Maria Pretinha é uma planta fácil de identificar. Contudo, em algumas localidades, pode ser confundida com a erva-moura, Solanum nigrum, e com a Solanum ptycanthum, ambas espécies similares.

A Solanum nigrum é tóxica quando madura, se consumida crua. Porém, diversos autores apontam seu consumo cozida enquanto geléia. Acredito que precise ser muito bem cozida. Em caso de dúvida, se não consegue identificar as espécies, transforme-a em doce, compota, geléia ou xarope que seu consumo será seguro. Por sorte, a Solanum nigrum é menos comum no Brasil, mas possui diversos registros de ocorrência no Sul e Sudeste.

Segundo alguns autores, inclusive o Prof Lin Ming, da UNESP de Botucatu - SP, relata que as folhas da Solanum americanum são consumidas na Ásia, muito bem cozidas, como hortaliça. Recentemente tive a oportunidade de prová-las e são saborosas, mas ainda tenho receio em consumí-las. Como saber o quanto de cozimento é preciso para destruir as toxinas? Na dúvida, evite.


Maria pretinha, numa calçada no bairro da Lapa.
Como diferenciar? Para consumir, a planta precisa atender a TODOS OS CRITÉRIOS A SEGUIR:

Solanum americanum  Solanum nigrum
COMESTÍVEL VENENOSA (crua)
Frutos brilhantes Frutos Opacos
Frutos rajados quando amadurecendo Frutos mudam de cor gradualmente
Frutos ligados num único ponto, que é ligado ao caule Frutos ligados diretamente ao caule, porém próximos entre si
Folhas pouco serrilhadas Folhas muito serrilhadas
Sementes pequenas Sementes médias
De 40 a 110 sementes De 15 a 60 sementes
Folhas verdes na parte inferior Folhas verdes ou avermelhadas
Caule com poucos pelos Caule com muitos pelos
Sépalas não aderem ao fruto Sépalas aderem ao fruto

Maria pretinha. Frutos verdes são salpicados de branco.
As folhas são pouco serrilhadas e parecem de pimenteira.
Os frutos maduros são brilhantes.
 Todos eles são ligados por um cabinho,  unindo-se
num único ponto, ligando-o a planta.


Erva Moura. VENENOSA quando crua, comestível se cozida.
 As folhas são muito serrilhadas.
Os frutos maduros são opacos.
 Todos eles são ligados por um cabinho, mas não se fundem
 num único ponto, igual a um cacho de uvas.
Informações Gastronômicas
  • O sabor não é muito forte na baga crua. Contudo, após ser cozida, o sabor lembra geléia de uva ou mirtilo. Não tem muita pectina, fica uma geléia rala.
  • Doce/suave.
  • Frutos imaturos são amargos e tem gosto de pão mofado.
  • Frutos maduros são doces, pouco ácidos, com gosto suave de amoras.
  • Folhas NÃO são comestíveis.
  • Frutos podem ser usados em bolos, tortas, geléias e vitaminas.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Os Matos de Comer: As PANC's - Parte 1

A primeira vez que eu ouvi falar de "plantas alimentícias não convencionais" foi num programa de televisão. Acho que era uma reportagem no Globo Rural, falava da tal da Ora-pro-Nobis. Fiquei com esse termo na cabeça, porque falavam das panc's pra lá, das panc's pra cá.

Vamos do começo. PANC é uma sigla para Planta Alimentícia Não Convencional. Esse termo foi cunhado em 2004, pelo pesquisador Valdely Kinupp, em sua tese de doutorado. Desde então, essa terminologia vem sendo abertamente aceita, e são recorrentes os trabalhos usando esse conceito. Ele abrange tanto as hortaliças cultivadas (como o cará moela, a araruta e o feijão mangalô) quanto as selvagens (alho selvagem, taioba, picão). Também inclui as plantas nativas e plantas trazidas de fora, chamas de exóticas.

Dessa forma, o termo PANC's é extremamente abrangente. O critério para considerar uma planta uma panc é subjetivo: ser comestível, não ser cultivado em escala comercial, não ser consumido frequentemente pela população em geral, não ser comercializado. Eu incluiria aqui um fator cultural de cultivos "negligenciados", cuja negligência pode ser gerada por desconhecimento, por preconceito, pela dificuldade de obtenção, pela falta de conhecimento de cultivo e preparo, pela dificuldade de produção em grande escala, pela oferta de outros alimentos de fácil obtenção.

Por desconhecimento, a primeira razão, é simplesmente não saber que aquela planta é útil e comestível.

Por preconceito, é achar que uma planta espontânea é um "mato", "daninha", e não um alimento. Ou ainda, que é comida de "desesperado", de "pobre". Um exemplo disso é o consumo de arroz no sudeste, que cresceu enormemente no passado a despeito do uso da farinha de trigo. A farinha de mandioca era coisa de pobre, de índio. O arroz era coisa de europeu, de civilizado. Isso aconteceu com nossos grãos nativos, frutas, raízes, ervas...

Pela dificuldade de obtenção, tomemos o exemplo do Baru. É uma castanha originária do cerrado, uma semente de uma árvore que demora anos para frutificar. E a safra não é todo ano. E as castanhas vem dentro de uma casca muito dura, que precisa ser quebrada com técnica. A árvore não produz anualmente. E apenas se colhem os frutos caídos do chão. Como garantir a produção em larga escala, ao longo do ano, atendendo as demandas de consumo?

Pela falta de conhecimento e preparo, podemos citar diversos grãos, alguns tipos de mandioca, ou ainda plantas que são venenosas quando cruas, mas comestíveis quando cozidas. Porque nem todas plantas venenosas deixam de ser venenosas depois de sair da panela. Outro desconhecimento pode ser em relação ao que já conhecemos. Como assim? A batata doce não é uma PANC, certo? Contudo, não só as batatas são consumidas. As folhas podem ser comidas como verdura, espinafre, mas alguém consome? Vende em algum lugar? Provavelmente, não. Então, a batata doce não é uma PANC, mas suas folhas entram na categoria. E agora?

Pela dificuldade de produção em larga escala, podemos pensar num fator próprio da planta. Por exemplo, temos diversos tipos de arroz nativos, mas só consumimos o arroz de origem asiática. Isso, porque nossas plantas de arroz não foram selecionadas para florir e produzir todas ao mesmo tempo: como colhe-se em grande escala, se algumas plantas estão maduras, outras ainda florescendo?

Pela oferta de outros alimentos, algumas frutas e verduras são deixadas de lado simplesmente porque é mais fácil ir na feira e comprar as plantas e frutas de sempre: alface, couve, repolho, tomate, cenoura...

Ah, o que mais? O Termo PANC'S inclui não só verduras, mas frutos, sementes, castanhas, raízes, temperos, plantas fontes de óleo, de sal, de corante, de adoçante...Ou seja, é um termo bem genérico.

Existe o termo Hortaliças Não-Convencionais, um termo um pouco mais antigo, da década de 90, referente a plantas comestíveis na forma de hortaliças: brotos, folhas, ramas. Ou seja, é um termo já mais específico.

E pesquisando sobre Hortaliças Não-Convencionais, descobri que as antigas culturas meso-americanas tinham um termo específico para isso.

Vou contar sobre ele na próxima postagem, Parte 2.

Temperos - Qual seu Preferido?

Quais os temperos que você mais come na sua casa? Se tivesse que usar apenas 3 temperos para descrever sua alimentação, como seria?

Aqui em casa, os que mais usamos, são cebolinha, salsa e cebola. Se eu tivesse que escolher os meus 3 preferidos, seria cebola, pimentão e cominho.

Estou inspirado para falar de sabores porque hoje minha irmã me mandou uma gráfico muito legal sobre os sabores do mundo. Foi exatamente essa a proposta: três temperos que dessem uma noção geral da culinária de determinado país ou região.

São citadas 36 combinações - e nenhuma delas relacionada à América do Sul.

De Américas, aliás, só o México, que é América do Norte.

Clique na imagem para ampliar. (Em inglês)

Fiquei pensando nisso. São tantos os sabores, que acho seria possível fazer uma lista com os sabores do Brasil.

Para deixar bem claro, a maior parte dos sabores da cultura brasileira não são nativos das américas. Não? Na verdade, como quase todo mundo sabe, a maior parte das coisas que comemos são originárias de outras regiões. E claro, os temperos não escapam à lista. Alho, cebolas, manjericão, salsa, cebolinha, coentro, louro, cominho, cravo, canela - todas da Europa e em menor parte, Ásia.

Quis fazer uma lista simples de ervas e plantas nativas, que são em sua maior parte, usadas regionalmente, da América Central à América do Sul.

Separadas por ordem alfabética do nome científico:

Acmella oleracea - Jambu
Amburana cearensis- Emburana
Apium leptohpyllum - Salsão Silvestre
Bixa orellana - Colorau
Chenopodium ambrosioides - Erva de Santa Maria/ Epazote
Eryngium foetidum - Coentro de Pasto/Chicória do Norte
Lepidium ssp - Mostardas, Mastruços.
Leucaena leucocephala - Leucena
Lippia graveolens - Orégano Mexicano 
Nothoscordum gracile - Alho Silvestre
Ocimum selloi - Manjericão Anis
Persea americana - Folha de Abacate
Piper auritum - Hoja Santa
Porophyllum linaria - Pipita
Porophyllum ruderale - Quirquiña, Papaloquelite, Papalo
Schinus terebinthifolius - Pimenta Rosa
Tagetes lucida - Estragão Mexicano
Xylopia aromatica - Pimenta de Macaco

E você, conhece alguma dessas espécies? Aposto que andando pelas ruas você encontra Apium leptohpyllum, Chenopodium ambrosioides, Lepidium sativum, Leucaena leucocephala, Porophyllum ruderale, Schinus terebinthifolius.

Não seria legal se a gente resgatasse esses sabores? Se a gente soubesse de onde vem, culturalmente, o que a gente come? Se houvessem outras possibilidades na cozinha?

Dentro do próximos mês, semanalmente, farei uma postagem sobre algumas dessas ervas, seus usos e cultivo.

Já falamos da Leucena aqui e do Mastruço aqui.

Até a próxima!


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