quinta-feira, 21 de abril de 2016

Urtigão, Cansanção

Folhas de urtigão, Urera caracasana. Urtiga
saborosa e de cultivo simples. Do mato pra mesa.

Algumas plantas eu persegui por um longo tempo, e quando a encontro é em um lugar bem comum. O urtigão (Urera caracasana) é uma dessas plantas. Esses dias estava a caminho do ônibus quando vi, na universidade, uma moita com um "jeitão" muito de urtiga. Com base nas fotos que já havia visto pessoalmente, suspeitei que fosso o urtigão, uma urtiga que produz frutos avermelhados. Como não havia nenhum fruto e nenhuma pista de que era uma urtiga, fui embora com aquilo na cabeça. Voltei outro dia e fiz o teste da urticância que obviamente não recomendo para você, amigo leitor(a): fui me esfregando na moita até que ui, doeu. Doeu muito. Quanto mais doía mais feliz eu ficava: masoquismo de entusiasta botânico. Se doeu, era urtiga. Tudo pelo bem da ciência. Oba!

Prometa não fazer isso em casa, nunca! Aliás, mais um capítulo para o Manual de bons modos no transporte coletivo: não carregue urtigas saindo para fora da sacola ou você será um meliante em potencial e odiado pelo resto do ônibus. 
Não leve as ramas para fora da sacola, elas queimam!

Ok, não é uma dor insuportável como a das urtigas bravas, como a da Urera nitida (já falamos dela aqui). Mas é uma queimação moderada e incômoda que passa em alguns minutos. Não surgem bolhas nem nada, como acontece com algumas urtigas, embora o local fique vermelho algum tempo. Nada feliz. Mas indica que é urtiga. Lembrando que outras espécies também podem queimar a pele e não são urtigas. Espécies como Cnidoscolus pubescens, Sida urens e Jatropha urens são altamente venenosas e são chamadas de cansação, urtiga, e geram queimaduras gravíssimas na pele, com formação de bolhas e inchaço. Para nossa sorte, completamente diferentes das urtigas comestíveis. Não vá comer, heim?

(Dica: toda planta que tenha no nome científico urens indica que é uma planta que causa irritação e queimadura na pele. A palmeira Caryota urens, a rabo-de-peixe ornamental, tem frutos recobertos de veneno que causam forte reação alérgica).

Do urtigão, ele de início não parece comestível, porque tem folhas ásperas e com textura irregular - a isso botanicamente dá-se o nome de "folhas cartáceas": finas, rígidas e um tanto quebradiças. Essas folhas cartáceas, aliás, são tipicamente escuras na parte de cima e esbranquiçadas na parte inferior da folha. Notei que as folhas mais velhas são menos urticantes que os brotos. Depois de colhidas, em algumas horas as urtigas perdem boa parte de sua pinicância, mas de qualquer forma, devem ser consumidas cozidas, nunca cruas. 

Trouxe algumas folhas para preparar em casa e alguns galhos para propagar em vaso - é dito que qualquer galho mais velho colocado na terra brota sem problemas. As minhas já foram pra terra e de fato, crescem sem problemas. Em dois meses ela triplicou de tamanho! Notei que é exigente quanto a regas e não gosta de sol direto, apenas luminosidade filtrada. As folhas foram pra panela e como eram poucas, foram fazer apenas um charme no arroz.

Apesar da textura áspera quando cruas, cozidas ficam
macias, e deliciosas. Fora seu valor nutricional
considerável.

Nutricionalmente é sabido que as urtigas são as verduras mais completas que se pode desejar, extremamente nutritivas e com valores altíssimos de cálcio, magnésio, boro, ferro e proteínas. Aproveite e coloque urtigas na sua dieta, plante em casa. Elas gostam de locais sombreados e se dão bem em vasos à meia-sombra, desde que o solo seja fértil e o ar não seja muito seco. São boas plantas para ter em locais onde nada mais cresce, porque são rústicas e não exigem muito. Só não vá plantar onde brincam crianças nem em passagens e caminhos. 

As ramas podem passar dos três metros,
e rebrota abundante depois da poda.
Gosta de locais úmidos e sem sol direto.

Na cozinha, seus usos são muitos, porque é uma verdura deliciosa. Deve ser fervida antes do consumo, para perder a pinicância e para amaciar um pouco, porque é fibrosa. Rende sopas absolutamente maravilhosas, assim como pode acompanhar qualquer prato que originalmente leve couve, espinafre ou outra verdura cozida. Picadinha com queijo rende pastéis fantásticos, e empanada e frita fica crocante e muito saborosa. Não sei explicar o sabor, mas não tem gosto de mato, tem gosto de comida. 

E se tiver em abundância, disse um amigo que cria galinhas que elas engordam e botam ovos maiores quando alimentadas com urtiga. Nesse caso, corte as folhas e deixe-as ao sol ou murchar por ao menos 12 horas, tempo em que a maior parte do seu veneno urticante é degradado. Não vá queimar a guela das tuas galinhas!
As folhas, note a textura.

Os brotos característicos.

As folhas jovens: as mais urticantes. Quando velhas,
tem a forma ovalada e são menos urticantes.

Essa urtiga mansa, de nome científico Urera caracasana, é uma urtiga muito comum em beiras de estrada, caminhos, trilhas e capoeiras. Infelizmente, é mais comum no centro-oeste e no sul, e mais rara aqui no sudeste. Fique de olho, leve galhos para casa e comece a sua plantação. Eu acho que é uma boa ideia usar como cerca-viva, porque forma uma barreira dolorosamente intransponível.

Ah, vale lembrar que essa mesma espécie pode ter folhas em formato mais arredondado ou mais alongado, dependendo do local de cultivo, da luminosidade e da idade da muda, sendo que em geral os brotos são finos e as folhas mais velhas, são mais arredondadas. Algumas fontes que pesquisei mostram folhas bem arredondadas, enquanto a literatura indica que eu formato é "ovado arredondado a ovado oblongo". Na dúvida, além da urticância e da face inferior da folha esbranquiçada, verifique a presença de furtinho alaranjados ou vermelhos (não encontrei a bendita frutificando ainda). E aproveite!

sábado, 16 de abril de 2016

Capim-cheiroso


Capim cheiroso. Tiririca perfumada.
 Kyllinga odorata
Então, esse não é um mato de comer, não que eu saiba. Mas fiquei tão feliz em saber que era uma planta aromática que resolvi compartilhar com vocês. O capim-cheiroso é um tipo de tiririca de inflorescências brancas, muito comum em gramados e jardins. Lá em casa era tão comum quanto a própria grama, e me lembro do cheiro que ela emanava quando passávamos a cortadeira no gramado.

Só fui descobrir do seu encanto quando lendo um livro sobre daninhas, vi seu nome, Kyllinga odorata. Odorata obviamente significa perfumada. Corri atrás de uma muda no jardim do prédio, e sim, ela é perfumada! Uma ciperácea, assim como a priprioca, uma planta aparentada que nasce no Amazonas e compõe o cheiro-do-Pará, da qual algumas empresas de perfume se apropriaram. Talvez o aroma delas seja de fato parecido, perfumado, cheirinho bom.


O cheiro é interessante, porque é uma mistura de capim, priprioca e... detergente. Ou sabonete. Não sei, é um cheiro herbal, doce e que me lembra limpeza, roupa lavada, banho, sabão. Prove e me conte. Seu aroma é suave e você precisará de muitas delas, em infusão no álcool, para conseguir o aroma concentrado. É planta para arrancar e cheirar no caminho, na grama, pra distrair os sentidos e entreter as crianças. Produtores de óleo essencial, se quiserem fazer testes, depois me contem!

O perfume está  nos caules e mais ainda, na raízes, que forma pequenos rizomas entouceirados. Ela se dispersa facilmente e forma moitas adoráveis de pompons brancos - você com certeza já fez picnic, acampou ou jogou bola sobre elas. Encantem as crianças, trance algumas para anéis mágicos dos duendes, com o perfume secreto da natureza.

Rizoma perfumado!

Perfume, perfume no meu gramado!
Eu comi e não achei graça, nem sei se realmente pode ir pra boca. O cheiro é mais forte que o gosto e o rizoma é levemente amargo e com gosto de perfume. Talvez sachês para perfumar a gaveta. Vou tentar. Depois de seca, os ramos ainda mantêm o aroma. E são lindos. A natureza é cheia de surpresas, um capim perfumado há tanto tempo debaixo dos meus olhos. É preciso provar mais!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Tupinambo, Girassol Batateiro, Jerusalem Artichoke

Tupinambos, de novo!

Há alguns anos venho cultivando uma obsessão pelo tupinambo, especialmente quando li no "How to Grow More Vegetables", de John Jeavons, que o tupinambo é uma das culturas com maior produtividade calórica por área, ou seja, que é uma das culturas que mais rende, tanto em peso quanto em volume, por área plantada.

Comi algumas vezes na Irlanda, quando morei por lá, e de fato é uma batatinha muito da saborosa, com gosto de alcachofra, o que explica seu nome. Quando cozida, não fica molenga, mas se mantém firme e levemente crocante - quem já comeu o legume amazônico ariá sabe da textura que estou falando. Comprei em uma mercearia chique, porque não era legume comum, de vender em mercado, mas em alguns empórios eu encontrava. Cheguei a plantar certa vez e a colheita foi boa, embora pudesse ter sido melhor se o verão irlandês tivesse mais sol e menos chuva. 

Trouxe para o Brasil duas variedades lindas, que logo brotaram e renderam muito. O problema das batatas do tupinambo é que elas, depois de colhidas, estragam muito facilmente, assim como a mandioquinha ou o yacon. O segredo é deixar na terra e ir colhendo aos poucos, ou guardar em um pote fechado na geladeira.

Tupinambos fora da geladeira apodrecem.

O tupinambo é parente do girassol, embora seja mesmo parecido com a dália: produz gordos tubérculos amiláceos durante o verão, morrendo no outono, hibernando no inverno e rebrotando na primavera. Por isso o nome, girassol-batateiro. A planta é idêntica a um girassol, com a diferença que forma um arbusto muito ramificado, muito parecido com o margaridão ou mão de deus (Tithonia diversifolia), o que já levou muita gente a escavar terrenos baldios repletos de margaridão em busca de tubérculos.

Flores do tupinambo.
As flores parecem muito as do margaridão.
Esse é o margaridão, Tithonia diversifolia.
Note como as folhas são recortadas. Ele não produz
batatas nem é comestível.
Nutricionalmente, é rico em inulina, um polissacarídeo pré-biótico que lhe confere sabor adocicado, além de fibras, minerais e proteínas, especialmente metionina e arginina, complementando dietas baseadas em leguminosas. Pode ser consumido cru, é crocante e de sabor suave, muito parecido com a batata yacon (aqui em São Paulo a batata yacon pode ser encontrada já em mercados e até em feiras livres com facilidade). Suas

Ele é nativo da américa do norte, sendo encontrado por quase todo o território americano onde o solo não congela a menos de -5ºC, temperatura letal para sua sobrevivência. Lá é chamado de sunchoke, porque é parente do girassol, sunflower, e tem gosto de artichoke, alcachofra. Algo como "solcachofra". Na Europa é chamado de tupinambo, tupinambour ou alcachofra de jerusalém.

Apenas dois pés renderam tudo isso.
Pois bem, ganhei mais alguns tupinambos, e desse vez aprendi o truque para não perdê-los. Aparentemente, eles precisam de um inverno frio para rebrotarem, caso contrário ficarão na terra esperando por esse "frio" até o momento que apodrecerão. Isso acontece com alguns produtores de flores brasileiros, como de tulipas e narcisos, que precisam de frio para brotarem. Pois bem, inspirado pelas técnicas de conservação de bulbos que vi nas minhas pesquisas, vou deixá-los em areia ligeiramente úmida dentro da geladeira por seis meses, ou até a primavera, quando terão passado pelo inverno forçado do refrigerador. O amigo que me deu os tubérculos, o Clovis (obrigado, Clovis!) deu a dica de deixar em geladeira, que é o como ele mantém os tupinambos dele até hoje, há cinco anos.

Para isso, usei um pote plástico limpo, e um bocado de areia. A areia eu coloquei em uma forma e deixei cozinhando na boca do fogão até ficar muito quente e secar totalmente - poderia te deixado no forno por uma hora na temperatura máxima - dessa forma ela ficará esterilizada e a chance de haver fungos contaminantes serão menores. Umedeça ligeiramente a areia, de forma que ela fique solta e com textura de "farofa". Usei aproximadamente 2 colheres de sopa para cada copo (200ml) de areia. Deixe os tupinambos já lavados em solução 5% de cloro por 2 minutos, enxague bem e seque com papel toalha limpo. No pote, coloque uma camada de areia, uma de batatas, e vá intercalando, sendo a última camada de areia. Evite deixar que os tupinambos se encostem, caso contrário uma contaminação pode proliferar com muita rapidez. Você pode tentar fazer sem esterilizar - foi preciosismo da minha parte, assim como pode usar um solo orgânico e leve no lugar da areia. Esse pote vai morar no gaveteiro de legumes da geladeira do outono até a primavera. Não esqueça de rotular.

Guarde na areia úmida na geladeira.

Eu tive a chance de ver a colheira dele e ela foi de muitos quilos com apenas dois pés, então eu imagino que a colheira seja exponencial. Talvez seja uma planta apropriada para quem mora em clima frio aqui no Brasil, cidades serranas ou no sul, onde o inverno bata a pelo menos 5ºC no inverno. Enquanto houverem geladeiras, haverão tupinambos! Permaculturalmente não faz muito sentido insistir em uma planta que exige resfriamento por um semestre, mas a geladeira aqui de casa estaria ligada com ou sem tupinambos. Diz-se que ele não produz sementes, poque seria a maneira adequada de cultivá-lo, dispensando o uso da geladeira.

Fora do Brasil, em Portugal, Canadá e EUA, e países cujo inverno é muito rigoroso, mas que possuem verões quentes, o tupinambo se torna uma planta invasiva e rebrota intensamente durante o verão. Há um relato interessante aqui (em inglês). 

Dos bulbos maiores que ganhei, alguns comi, no prato que reproduzo a seguir. É uma receita inspirada no tofu com molho de missô, que são sabores delicados que vão ressaltar o aroma do tupinambo.

Eu descasquei errado - bastava cozinhar com casca.
Tupinambo com tofu e cogumelos à moda oriental.

Tupinambo com tofu e cogumelos à moda oriental.

Ingredientes:
6 tupinambos grandes
100gr de tofu firme
50gr de vagem macarrão ou holandesa
150gr de cogumelo shimeji
3 colheres de cebolinha cortada fininho
1 colher sopa de sakê culinário
1 colher café açúcar
3 colheres sopa de shoyu
1 colher de café cheia de missô
1 colher de sopa de farinha de arroz.

Descasque os tupinambos e corte-os em meia-lua. Depois eu fui pesquisar e ele pode ser comido com casca - tarde demais, já tinha cortado-os todos. Coloque numa wok ou palena grande, cubra com água e deixe ferver até ficar ligeiramente transparente. Tire as pontas das vagens, corte-as em pedaços grandes e coloque-as na sequência, por mais 3 minutos. Faça o molho: remova a água desse cozimento e coloque o shoyu, o açúcar, o missô e o sakê culinário, separadamente. Na panela, onde ficou a vagem e o tupinambo, coloque os cogumelos e cozinhe em fogo baixo por dois minutos. Coloque o tofu picado, a cebolinha e misture delicadamente. À parte, dissolva a farinha de arroz no molho, verta-o sobre a panela com os legumes o tofu e deixe cozinhar misturando com delicadeza para não ferir o tofu, até o molho engrossar. Deixe descansar 5 minutos para pegar gosto, e deve ser servido quente.
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