Páginas

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Tupinambo, Girassol Batateiro, Jerusalem Artichoke

Tupinambos, de novo!

Há alguns anos venho cultivando uma obsessão pelo tupinambo, especialmente quando li no "How to Grow More Vegetables", de John Jeavons, que o tupinambo é uma das culturas com maior produtividade calórica por área, ou seja, que é uma das culturas que mais rende, tanto em peso quanto em volume, por área plantada.

Comi algumas vezes na Irlanda, quando morei por lá, e de fato é uma batatinha muito da saborosa, com gosto de alcachofra, o que explica seu nome. Quando cozida, não fica molenga, mas se mantém firme e levemente crocante - quem já comeu o legume amazônico ariá sabe da textura que estou falando. Comprei em uma mercearia chique, porque não era legume comum, de vender em mercado, mas em alguns empórios eu encontrava. Cheguei a plantar certa vez e a colheita foi boa, embora pudesse ter sido melhor se o verão irlandês tivesse mais sol e menos chuva. 

Trouxe para o Brasil duas variedades lindas, que logo brotaram e renderam muito. O problema das batatas do tupinambo é que elas, depois de colhidas, estragam muito facilmente, assim como a mandioquinha ou o yacon. O segredo é deixar na terra e ir colhendo aos poucos, ou guardar em um pote fechado na geladeira.

Tupinambos fora da geladeira apodrecem.

O tupinambo é parente do girassol, embora seja mesmo parecido com a dália: produz gordos tubérculos amiláceos durante o verão, morrendo no outono, hibernando no inverno e rebrotando na primavera. Por isso o nome, girassol-batateiro. A planta é idêntica a um girassol, com a diferença que forma um arbusto muito ramificado, muito parecido com o margaridão ou mão de deus (Tithonia diversifolia), o que já levou muita gente a escavar terrenos baldios repletos de margaridão em busca de tubérculos.

Flores do tupinambo.
As flores parecem muito as do margaridão.
Esse é o margaridão, Tithonia diversifolia.
Note como as folhas são recortadas. Ele não produz
batatas nem é comestível.
Nutricionalmente, é rico em inulina, um polissacarídeo pré-biótico que lhe confere sabor adocicado, além de fibras, minerais e proteínas, especialmente metionina e arginina, complementando dietas baseadas em leguminosas. Pode ser consumido cru, é crocante e de sabor suave, muito parecido com a batata yacon (aqui em São Paulo a batata yacon pode ser encontrada já em mercados e até em feiras livres com facilidade). Suas

Ele é nativo da américa do norte, sendo encontrado por quase todo o território americano onde o solo não congela a menos de -5ºC, temperatura letal para sua sobrevivência. Lá é chamado de sunchoke, porque é parente do girassol, sunflower, e tem gosto de artichoke, alcachofra. Algo como "solcachofra". Na Europa é chamado de tupinambo, tupinambour ou alcachofra de jerusalém.

Apenas dois pés renderam tudo isso.
Pois bem, ganhei mais alguns tupinambos, e desse vez aprendi o truque para não perdê-los. Aparentemente, eles precisam de um inverno frio para rebrotarem, caso contrário ficarão na terra esperando por esse "frio" até o momento que apodrecerão. Isso acontece com alguns produtores de flores brasileiros, como de tulipas e narcisos, que precisam de frio para brotarem. Pois bem, inspirado pelas técnicas de conservação de bulbos que vi nas minhas pesquisas, vou deixá-los em areia ligeiramente úmida dentro da geladeira por seis meses, ou até a primavera, quando terão passado pelo inverno forçado do refrigerador. O amigo que me deu os tubérculos, o Clovis (obrigado, Clovis!) deu a dica de deixar em geladeira, que é o como ele mantém os tupinambos dele até hoje, há cinco anos.

Para isso, usei um pote plástico limpo, e um bocado de areia. A areia eu coloquei em uma forma e deixei cozinhando na boca do fogão até ficar muito quente e secar totalmente - poderia te deixado no forno por uma hora na temperatura máxima - dessa forma ela ficará esterilizada e a chance de haver fungos contaminantes serão menores. Umedeça ligeiramente a areia, de forma que ela fique solta e com textura de "farofa". Usei aproximadamente 2 colheres de sopa para cada copo (200ml) de areia. Deixe os tupinambos já lavados em solução 5% de cloro por 2 minutos, enxague bem e seque com papel toalha limpo. No pote, coloque uma camada de areia, uma de batatas, e vá intercalando, sendo a última camada de areia. Evite deixar que os tupinambos se encostem, caso contrário uma contaminação pode proliferar com muita rapidez. Você pode tentar fazer sem esterilizar - foi preciosismo da minha parte, assim como pode usar um solo orgânico e leve no lugar da areia. Esse pote vai morar no gaveteiro de legumes da geladeira do outono até a primavera. Não esqueça de rotular.

Guarde na areia úmida na geladeira.

Eu tive a chance de ver a colheira dele e ela foi de muitos quilos com apenas dois pés, então eu imagino que a colheira seja exponencial. Talvez seja uma planta apropriada para quem mora em clima frio aqui no Brasil, cidades serranas ou no sul, onde o inverno bata a pelo menos 5ºC no inverno. Enquanto houverem geladeiras, haverão tupinambos! Permaculturalmente não faz muito sentido insistir em uma planta que exige resfriamento por um semestre, mas a geladeira aqui de casa estaria ligada com ou sem tupinambos. Diz-se que ele não produz sementes, poque seria a maneira adequada de cultivá-lo, dispensando o uso da geladeira.

Fora do Brasil, em Portugal, Canadá e EUA, e países cujo inverno é muito rigoroso, mas que possuem verões quentes, o tupinambo se torna uma planta invasiva e rebrota intensamente durante o verão. Há um relato interessante aqui (em inglês). 

Dos bulbos maiores que ganhei, alguns comi, no prato que reproduzo a seguir. É uma receita inspirada no tofu com molho de missô, que são sabores delicados que vão ressaltar o aroma do tupinambo.

Eu descasquei errado - bastava cozinhar com casca.
Tupinambo com tofu e cogumelos à moda oriental.

Tupinambo com tofu e cogumelos à moda oriental.

Ingredientes:
6 tupinambos grandes
100gr de tofu firme
50gr de vagem macarrão ou holandesa
150gr de cogumelo shimeji
3 colheres de cebolinha cortada fininho
1 colher sopa de sakê culinário
1 colher café açúcar
3 colheres sopa de shoyu
1 colher de café cheia de missô
1 colher de sopa de farinha de arroz.

Descasque os tupinambos e corte-os em meia-lua. Depois eu fui pesquisar e ele pode ser comido com casca - tarde demais, já tinha cortado-os todos. Coloque numa wok ou palena grande, cubra com água e deixe ferver até ficar ligeiramente transparente. Tire as pontas das vagens, corte-as em pedaços grandes e coloque-as na sequência, por mais 3 minutos. Faça o molho: remova a água desse cozimento e coloque o shoyu, o açúcar, o missô e o sakê culinário, separadamente. Na panela, onde ficou a vagem e o tupinambo, coloque os cogumelos e cozinhe em fogo baixo por dois minutos. Coloque o tofu picado, a cebolinha e misture delicadamente. À parte, dissolva a farinha de arroz no molho, verta-o sobre a panela com os legumes o tofu e deixe cozinhar misturando com delicadeza para não ferir o tofu, até o molho engrossar. Deixe descansar 5 minutos para pegar gosto, e deve ser servido quente.

4 comentários:

  1. Menino amei seu blog! adoro conhecer frutas legumes e matos novos! eheh
    seria legal ver uma materia sobre maria pretinha (solanum) esta que falei é de boa, tme uma outra que é mega parecida e é venenosinha rs

    abraços tudo d bom!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Falamos dela aqui: http://www.matosdecomer.com.br/2014/07/matoberry-outras-solanaceas-maria.html

      Excluir
  2. Eu tenho cultivado no meu quintal, tenho comido e até inventei receitas bem boas.
    Realmente a conservação é que é complicada, a ver se tento congelado...
    beijinho, eugénia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eugenia, quando me refiro a geladeira me refiro a uma temperatura de 6ºC a 10ºC, acredito que se congelar ele morre, heim? Abraços

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...