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domingo, 10 de agosto de 2014

Os Matos de Comer: Quelites - Parte 2

A horta de casa: de tudo um pouco. Com flores? Melhor ainda.

Dos contos infantis dos Irmãos Grimm, dentre eles Chapeuzinho Vermelho, existe um conto menos conhecido, chamado Rumpelstiltskin. Aqui no Brasil o conto é quase desconhecido. Trata-se da história de uma donzela que deve favores a um duende mágico, que transforma desejos em realidade, cobrando, contudo, um preço para isso. Seria um tipo de mercenário mágico em versão infantil.O duende, chamado Rumpelstiltskin, tem poderes sobre a tal donzela, que fica devendo-lhe um pedido, que foi realizado, mas ela não pagou-lhe nada em troca. Prometeu-lhe seu filho primogênito, mas quando a criança nasceu, o duende propôs um desafio: se ela descobrisse seu nome, a dívida estaria quitada. Pois bem, já contando o final do conto, a moça descobre o nome do duende mágico, dando a ela poder sobre ele, e pondo fim à dívida.

E é da moral desse conto que eu gosto: só temos poder sobre as coisas que conhecemos o nome. Voltando pros nossos matos de comer, é exatamente isso: só sei que um mato é comestível depois de descobrir o nome dele - e ter o poder de pesquisar sobre ele. E não precisa ser o nome todo-pomposo em latim, não: o nome popular já ajuda.


Falamos em uma postagem passada (que você pode conferir aqui) das plantas alimentícias não-convencionais, as PANC's. Explicamos a origem do termo, quais plantas se enquadram nas PANC's e quais suas características.

Agora, vamos falar das hortaliças não-convencionais, as HONC (essas siglas ficam cada vez mais engraçadas). Existe um termo mexicano para verdura chamado "quelite". Esse termo vem do idioma náhuatl, a palavra "quílitil", que foi modernizada no espanhol mexicano para o termo "quelite".

Originalmente, significava algo como "verduras comestíveis, tenras, macias" (em alguns casos, de plantas cultivadas). O interessante é que essa nomenclatura, que inclui uma enorme quantidade de plantas diferentes, é usada há séculos no México. Quelite no México não é só verdura do mercado e da feira, mas inclui as plantas espontâneas, algumas cultivadas até em escala comercial, mas que ficam fora do que nós conhecemos como verdura. Essas plantas, diferentemente das brasileiras, são amplamente citadas nas buscas em sites mexicanos, o que significa para mim, que elas são consumidas em maior escala que no Brasil. Exemplos? Veja aqui (em inglês) e aqui (em espanhol).

Ou seja, consome-se mais PANC'S no México porque o nome delas é conhecido? Talvez. Arrisco no meu palpite de que conhecimento é poder, e saber o nome de algo nos dá poder em saber o que é, para que serve e como se come. Aqui, uma planta que nasce no quintal é "matinho", afinal, quem sabe o nome do que nasce sozinho, semeado pela natureza. Lá, contudo, essa mesma planta é visto com outros olhos: é uma verdura com nome e história de consumo e preparo. Mais fácil assim, né?

Os nomes populares das PANC'S no Brasil são muitos, não digo o contrário. Lingua de vaca, carne de pobre, buva, picão preto, serralha, pincel de estudante, mastruço, bertalha, vinagreira. Mas elas são muito mais conhecidas nos rótulos de agrotóxicos do que nos livros de receita. A indústria química os conhece bem, mas os cozinheiros, não. Paradoxo?

Então, aproveitemos as nossas PANC'S! São as nossas plantas ruderais, de fundo de quintal, de fresta na calçada, de beira de estrada,  as plantas que não são nada exigentes e por essa razão, nascem em qualquer lugar. A maior parte delas, para nossa sorte, é das famílias Asteraceae, Amaranthaceae e Brassicaceae - famílias botânicas que, em geral, possuem espécies pouco venenosas, e portanto, comestíveis.

Minha proposta é: vamos pensar nos nosso matos de comer como quelites? É só um ajuste de terminologia, mas no final, tem um sentido mais prático. Não são matos, nem daninhas, nem capins, nem inços. São, no fim das contas, quelites, ou verduras. São comida, barata e de qualidade. Vamos saber o nome do que nasce na rua?

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