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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Pixirica: berry brasileira

Toda criança que come porcarias sabe associar o sabor azul ao de tutti-frutti. Chiclete azul, sorvete azul, jujuba azul. Claro, alguns fabricantes não respeitavam minha lógica infantil e faziam algumas jujubas tenebrosas sabor anis, mas acho que superei o trauma. 

Nunca entendi a lógica entre o azul e o tutti-frutti. Será que é porque todas as outras frutas possuem outras cores, menos azul? (Não vou nem ousar pensar como o sabor azul podia ser de anis, a não ser por uma brincadeira de muito mal gosto com a cor anil, anil anis). Pelo menos das frutas mais comuns, nenhuma azul, nem por fora, nem por dentro. No máximo a uva, bem roxa.

Nos anos 2000 apareceu um novo sabor azul para os paladares brasileiro. Claro, com o aumento do poder aquisitivo da classe média, que viajava mais e consumia as coisas "lá de fora", a importação de produtos estrangeiros e maior uso de internet, e seus consequentes blogs de culinária. Era a blueberry. Quem olhava com atenção as vitrines das confeitarias chiques sabe qual foi a vedete da década. Nem o morango -, eterno clássico, nem a ameixa - para a qual as crianças torcem a cara, nem as jabuticabas - muito caroçudas para decoração. Era ele, a blueberry, já traduzida sob o nome de mirtilo.

Esse mirtilo chegava embaladinho a preços megalomaníacos em caixinhas forradas com espuma, um anel numa caixinha de jóias. O gosto? Bem, o gosto.... Não compensava o preço. Pra um brasileiro acostumado à mangas cheirosas, bananas inebriantes, jacas perfumadíssimas, goiabas empestiantes, o mirtilo era bem sem graça.

Só fui aprender o segredo do mirtilo lá fora: ele não tem muito sabor cru, mas se transforma quando cozido. Libera aroma de especiarias, frutado, doce. Aí sim.

Mas e tudo isso pra lembrar que: existem frutas azuis no Brasil?

Berry brasileira: Pixirica, muito prazer
Existem. Vamos falar da nossa berry da Mata Atlântica, que nasce fácil em qualquer lugar. Os nomes não são muito encantadores, e duvido que ela passe a coroar ricos doces confeitados com eles. O primeiro nome popular é esquisito: Pixirica. O segundo nome mais comum, o horror: Meleca-de-cachorro.

Antes que você fique enjoado e vá embora, vou contar da Pixirica (vamos fingir que os outros nomes melequentos que dão a ela não existem, ok?). Ela é uma melastomatácea, comum na região centro-oeste, sul e sudeste, de nome científico Leandra australis. Tem folhas muito parecidas com a da Quaresmeira, mas porte pequeno e ramos avermelhados.

Muitas pixiricas, que eu disputo com os morcegos.

 Eu a vi pela primeira vez quando fui me enfiar na mata para fazer umas trilhas de cachoeira com meu amigo Ravi lá em Paranapiacaba. Nascia num solo lodoso branco, pastoso e encharcado, onde outras poucas espécies nasciam. Estavam cobertas de liquens, musgos e bromélias, devido à eterna neblina. Os frutinhos, comi sem saber o que eram. Não morri.

 Por isso a minha surpresa quando a vi nascendo em Itu, num solo argiloso, seco, ácido e a pleno sol, coberta de poeira vermelha. Nem tinha dado atenção, é comum nascerem manacás e quaresmeiras-bravas no meio do mato e do pomar, então ignorei. Um dia, por acaso, ouvi falar dessa frutinha com nome estranho, e a ficha caiu. Era ela!

Na sombra fica densa e produz pouco, no sol fica desgalhada e produz muito, muito. As frutas amadurecem de um dia para o outro e eu colhia meio copo de frutas todo dia, e ia congelando. Tem boa duração pós-colheita, não murcha nem embolora, apenas fica meio opaca por estar na geladeira. Frutas pilosas, cremosas, micro sementes quase invisíveis. 

Pura, é doce doce, sem nenhuma acidez, com gosto de açúcar. 

Sabe aquele sabor de açúcar refinado? Nem um sabor muito surpreendente, claro, mas me chamou a atenção o fato de ela ter a polpa azul - não conheço nenhuma fruta brasileira com polpa azul. E das blueberries que provei na vida também não achei nenhum sabor fora do comum. Então, acho que não há realmente nenhuma superioridade na estrangeira. Também não vi bicho, nem dentro nem fora da fruta. 

Por dentro, um dos azuis mais lindos que já vi. Na literatura, o que eu suspeitava: é uma bomba de antioxidantes, rica em antocianinas.

Pixiricas esmagadas nas mão: Meleca de Cachorro?
 O único problema é que a casca da fruta é grossa, como a de uma jabuticaba. Quebra tranquilamente nos dentes, mas para geléia a textura fica pedaçuda. Na segunda tentativa, processei as frutas inteiras e levei pra panela o purê. A geléia ficou escura, negra, e no pão fica avermelhada. O ideal foi fazer uma geléia com as frutas inteiras, amassar de leve com a colher de pau e passar pela peneira. O resultado foi um azul-celeste muito bonito. Só não me pergunte celeste de qual hora do dia...

Geléia azul. Quem faz pouco, come pouco.
 As mudinhas aparecem de vez em quando perto dos pés das frutas, provavelmente porque os morcegos pousados fizeram as necessidades ali. Salvei duas mudas em vasos já, elas perderam as folhas, mas as gemas ainda estão verdes. Esperar para ver.... A planta tem raiz profunda, difícil de cavar, e há reservas de alimento nas raízes (xilopódio, rizoma, caule modificado?)

Quem já viu por aí? Quem arrisca fazer um belo doce azul, com nossa berry brasileira?

Pixirica, amadurece de um dia pro outro.
Antes que você me pergunte, já conto. Existe outra pixirica, também da família das Melastomatáceas, comestível. É o fruto da Clidemia hirta. Só tive a chance de prová-lo uma vez. Essa sim é mais saboroso, com sabor mais pronunciado. Cresce em locais umidos e sombreados, ou seja, predomina aqui no sudeste na Mata Atlântica. Eu até poderia chamar a Leandra australis de Pixirica do Sol e a Clidemia hirta de Pixirica da Sombra. Mas não sei se posso. E não quero inventar moda.

Frutos da outra pixirica, Clidemia hirta. Foto daqui

Flores da Clidemia hirta, foto daqui.
Clidemia hirta: densa população, local sombreado.
Foto daqui.
GUIA DE IDENTIFICAÇÃO
Leandra australis, sin Leandra atropurpureaSubarbustos a arbustos, 0,5-3,0 m de altura. Ramos cobertos de pelos, ligeiramente avermelhados nos brotos, folhas igualmente peludinhas, ovalada, com cinco faixas de venação, de ponta aguda e margem denticulada.  Flores arrumadas em panículas, todas com 5 pétalas, com corola alva e estames amarelos. Fruto oval, de até 0,5cm, peludinhos, com muitas sementes minúsculas. Sabor doce. 

LOCAL DE OCORRÊNCIA
Planta heliófila, ou seja, nasce em pleno sol. Pioneira, ruderal, nasce em orlas de mata e beiras de estrada. Sudeste e Sul, principalmente. 

MODO DE PREPARAÇÃO
Frutos consumidos cozidos ou in natura.

26 comentários:

  1. Ola.
    Fiquei maravilhada com a sua descoberta da nossa berry��
    Vc fara mudas para vendas?
    Gostaria de plantar varias mudas.
    Moro no centro oeste-mt

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  2. Oi Gulherme!
    Parabéns pela matéria! Adorei conhecer a Pixirica!
    Poderia dizer como posso encontrá-la em Itu? Moro muito próximo e adoraria tentar achá-la!

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  3. Oi Eternia! Minha idéia é fazer mudas pra venda ou troca nos eventos de trocas de mudas aqui em São Paulo. Ainda não consegui fazer germinar, estou pensando em tentar por estacas. As sementes devem sofrer algum processo dentro do aparelho digestivo dos morcegos ou passaros que ativa sua germinação. Assim que eu tiver mudas, mesmo que pequenas, aviso aqui pelo blog! abraços

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    1. De Una olhada tambem na camarinha,ou camarinha de serra, tambem é um blueberry que da Pra fazer ima geléia deliciosa. Fiz
      muito

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  4. Oi Mariana, tudo bom? Então, estamos entre a Castello Branco e a cidade, na estrada do Pinheirinho/Tapera Velha. Por vezes já vi essa planta na beira da estrada, aquela que começa na rua do Mercado Alvorada, no bairro do Rancho Grande, seguindo sempre reto. Por ali já vi algumas - mas sem frutos elas são irreconhecíveis, parecem pé de quaresmeira. Se eu prestar atenção no caminho e encontrar alguma, te mando a localização exata. A única muda que tenho nasceu no meu quintal - não vi nenhuma outra na vizinhança. As únicas que encontrei já presenteei amigos. Vamos ver se os morcegos não deixam plantinhas por aí... abraços!

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  5. Olá fiquei surpreso com o texto!
    estou procurando informações a muito tempo sobre a Pixirica. Sempre achei uma fruta interessante e parecida com o mirtilo porém ainda mais azul. Já fiz geléia e fica boa, uma geléia realmente diferente.
    Onde você achou algo na literatura sobre antioxidantes na pixirica?

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  6. Olha só, um texto ( muito bom) sobre a frutinha do mato que comia qdo criança! Nao conhecia esse nome , pixirica. Morava em Rio Grande da Serra e lá os japoneses, como eu, chamávamos de kuromi, ( kuro =preto, mi= fruta) Frutinha preta que deixa a língua azul para mostrar pros outros...

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  7. Vou sugerir uma mudança no nome do azul da sua geléia: parece mesmo azul ultramar e não celeste. Se conseguir mudas, eu me interesso também!

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  8. Cheguei aqui pois a Neide Rigo te indicou no Come-se. Seu blog é muito bom!!
    Comia mt clidemia hirta na infância (chamamos de bunda de aranha rsrs), aqui em Minas te bastante.
    Abraços,
    Vah

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  9. Esta é da minha infância.
    Gostei da comparação com a famosa Blueberry.
    Parabéns por divulgar nossas coisas nativas!

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  10. Em Piedade tem, sempre via pela estrada e ficava curiosa, com medo de pudesse ser venenosa.. Bom saber que agora posso fazer experimento, gratidão!

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  11. Olá Guilherme! Sobre a germinação da Leandra Australis e da Clidemia Hirta, creio que este artigo possa ser útil: http://www.colecionandofrutas.org/leandralacunosa.htm. Aproveitando o ensejo, vc já tem mudas destas duas frutíferas não convencionais?

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  12. Coletei uma mudinha e algumas sementinhas faz duas semanas. Já as plantei e agora é esperar para ver no que vai dar. Se tudo der certo, será com muita satisfação que replicarei mudas à disposição...

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    1. Goto, conte para nós de ser certo. Aqui, nunca consegui reproduzí-la, plantinha difícil essa, hahaha

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  13. Faltou guia de identificação da Clidemia Hirta...

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  14. Aqui em Lages/SC tem muito, só que dão em locais sombreados à beira de um riozinho que tenho na propriedade. Não dão muita produção, deve ser a falta de sol que mencionas, mas não as vi em locais ensolarados ainda

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    1. Ahh, deve ser a Clidemia hirta ou alguma outra clidemia, elas adoram beiras de rio! Para fazer geléia vou congelando e colhendo sempre que vejo frutos, e quando há suficiente, vai pra panela! Abraço

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  15. Oi Guilherme,que surpresa achar essa frutinha por aqui,rs em casa a chamamos de "Olho de Gato",e eu adoooro,quando criança costumava juntar em quantidade para jogar na boca de uma só vez.
    Boa idéia confeitar com ela,nunca tinha pensado nisso.

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  16. Quando eu era criança eu comia pixirica e nunca mais a encontrei. Onde exatamente que ela abunda? Moro aqui na região de Barueri, mas posso me deslocar onde tiver essa amorinha. Abraços! Abigail

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  17. Quando eu era criança eu comia pixirica e nunca mais a encontrei. Onde exatamente que ela abunda? Moro aqui na região de Barueri, mas posso me deslocar onde tiver essa amorinha. Abraços! Abigail

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  18. Olá,Abigail!
    Costumo encontrar essa frutinha no mato.
    Posso tentar mandar sementes para você.Caso queira entrar em contato comigo:
    Email: alcapaiva@gmail.com

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    1. Alcapaiva, fico muito agradecida! Hoje, já passei dos 60 anos, mas me lembro que era uma das coisas que matava minha fome quando criança! Não devemos nos envergonhar dessas coisas, mas sim se fizermos coisas erradas. Obrigada!

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    2. Alcapaiva, fico muito agradecida! Hoje, já passei dos 60 anos, mas me lembro que era uma das coisas que matava minha fome quando criança! Não devemos nos envergonhar dessas coisas, mas sim se fizermos coisas erradas. Obrigada!

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  19. Conheço e tenho mudas nativas da Pixirica ( Clidemia Hirta) pelas fotos acima. Qdo era criança adorava comer essas frutinhas, tem um gosto bem diferente. No post não entendi muito bem a diferença entre as duas, mas tenho certeza que a que tenho em minhas terras é essa que mencionei. Tem as memsmas propriedades as duas? Sou de Porto Alegre.

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  20. Eu também já comi muitas frutinhas desse gênero, apanhava para minha mãe fazer sufle e geleia, era uma delicia, que saudades delas.

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