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sexta-feira, 24 de março de 2017

Laranjinha, limeberry

Estive por muito tempo procurando essa planta parente da laranja, chamada de laranjinha (Triphasia trifolia). De fruta cítrica nada tem na aparência, estando mais para murta do que para uma pequena laranja. Receitas pela rede são poucas, informações em escassez. O que se diz dela é que é uma planta usada como ornamental, muito invasiva, que tem gerado alguns problemas ambientais em regiões litorâneas. Ou seja, é bom ficar de olho caso vá plantar a laranjinha por aí.

Um ramo e seus frutos, doces e amarguinhos.

Cada pontinho escuro na fruta é
uma bolsinha de óleo.

Uma rama da planta. As folhas não tem aroma.

Essa pequena frutinha tem um sabor potente - na sua casca, é possível observar pequenas bolsinhas de óleo essencial, que se rompem e liberam na boca esse aroma doce-e-amargo de laranja. Na verdade é um sabor cítrico que não dá pra associar com nenhuma fruta em particular, lembrando talvez uma kinkam. Bem potente, equilibra um amarguinho gostoso com o doce e o perfume picante de casca de laranja. A planta tem as folhas em forma de trevo (eis seu nome científico, tripholia), e é munida de fortes espinhos, assim como alguns tipos de limão.

Depois de tentativas fracassadas de adquirir essas sementes pelos correios, fazendo minha pesquisa de mestrado, encontrei no quintal de um morador do Vale do Paraíba. Para minha tristeza, em poucos dias as sementes perdem a viabilidade, então não sobrevivem bem à remessas postais, o que é uma pena.

O senhor que a tinha no quintal disse que se uso para aromatizar cachaça, e acredito que deva produzir algo que lembre o licor curaçao, só que em uma tonalidade avermelhada (de onde vem aquele azul, te pergunto). Porém, esse uso era só antigamente e hoje em dia a planta caiu no esquecimento.

As sementes são pequenas e muitas vieram abortadas - foi difícil encontrar ao menos uma que estivesse em condições de plantio. Estão há um mês na terra e até agora, nada. Estou sentindo que vai ficar só na lembrança. Caso tenha frutos aí, aproveite e use-os!

segunda-feira, 20 de março de 2017

Colheita de tupinambos

Finalmente, o fim da trilogia dos tupinambos. Já falei tantas vezes deles aqui que vocês já devem não aguentar mais. Para quem ainda não sabe, são batatas de uma planta parente do girassol, com um sabor muito especial. Já falei dos primeiros que ganhei de presente do Clóvis, aqui. Mostrei também que eles, por serem plantas de clima mais frio, precisam ser vernalizados, isso é, passar uns meses na geladeira, caso contrário, não brotam. Ensinei a fazer esse processo aqui.

Ainda não são muito conhecidas no Brasil, mas essas PANC tem tudo para aumentar sua popularidade no futuro. São de fácil cultivo, muito produtivas, de boa aceitação e muito gostosas. Se temos nas feiras yacon e mandioquinha, igualmente delicadas, o tupinambo será fácil de ser comercializado. O único porém é: precisam ficar em repouso na geladeira.

Depois do plantio, a evolução das plantas. No primeiro mês o desenvolvimento é lento, depois passa a acelerar em ritmo espantoso, de formando uma touceira densa. Note que as folhas são idênticas a do girassol, e as flores também. A floração, aliás, grata surpresa, possui aroma de chocolate. Por serem espécies híbridas, contudo, não produzem sementes férteis. E renova-se o compromisso de mantê-los refrigerados caso queira nova colheita no ano seguinte.

Na cozinha são versáteis, podem ser consumidos crus ou cozidos. Crus são crocantes, cozidos adquirem a textura da cenoura cozida. A vocação deles, para mim, é virarem uma bela sopa cremosa e clarinha, perfeita para as noites frias do outono. O sabor está entre a bardana e o alcachofra, ou um misto dos dois, sem amargor e levemente adocicado. Coisa fina.


Com um mês.

Com dois meses, junto com o milho.

Com três meses e meio, florindo. Chegaram a 3m
de altura.

Flores delicadas e perfumadas.

Os caules devem estar verdes na colheita.
O que deixei secar totalmente começaram a apodrecer.
Uma batata rendeu um quilo e meio
de batatinhas. Bom investimento.

Duas variedades. A da direita, plantei experimentalmente.
O pé é menor e os rizomas são difíceis de limpar,
porque tem essa forma nodosa. Quase impossível
tirar a terra toda, vou abandonar esse cultivo.

A primeira degustação. Assados ao alho e alecrim. Nhac!


sexta-feira, 17 de março de 2017

Tarumã, uva do cerrado

Tarumã (Vitex polygama)

Os frutos, negros.

Flores do tarumã. Lindas, não?


O fruto do tarumã é PANC!
Dei a sorte de encontrar um pé de tarumã, ou uva do cerado, (Vitex polygama) gigante perto de casa. Eu já suspeitava pelas folhas com aquele formato típico, mas só tive a certeza mesmo durante a floração, com flores bem características e parecidas com as da lavanda, do manjericão e do alecrim. É planta alimentícia não convencional sim!

A árvore é de grande porte e está comprometida - a prefeitura está reformando a calçada e ela vai ser removida, seus dias estão contados. Que ao menos deixe filhos, não? Assim que passou a floração, observei a formação dos frutos, e dei sorte de estar presente enquanto eles estavam maduros.

Não espere muita coisa, já aviso. Não é fruta para se deliciar. Muito parecido com o fruto do café, caroços grandes e a polpa, escassa, uma fina película entre a casca negra e a semente. A doçura se concentra nessa nessa massa fina e esbranquiçada, sem nenhum sabor característico, apenas doce. Acidez zero, aroma zero. O que fazer com ela?

As cascas, contudo, são a parte interessante do fruto, ricas em pigmentos e portanto, um corante natural. Sem também nenhum grande sabor, fornecem uma tinta roxa muito escura, assim como a casca da jabuticaba. Por possuir pigmento e ter a casca comestível, que façamos uma geleia. Confesso que a colheita foi pequena, e metade das frutas foram para o amigo Daniel Caballero, que cuida do projeto Cerrado Infinito, e está reintroduzindo e resgatando algumas espécies em extinção na cidade.

Da parte que guardei para mim, fiz uma tímida geleia que rendeu algumas colheradas, suficientes para comprovar o sabor - não que lembre de fato a uva, mas tem aquele gostinho de frutas escuras gostoso, amora, jabuticaba, mirtilo. Fez falta, no caso, um pouco de fruta ácida para equilibrar o paladar, trazer o azedinho que compense a neutralidade da polpa. Potencial para geleia de fazer bonito com essa fruta PANC do cerrado, ainda pouco explorada.

Como já disse, não é árvore para se fartar e se lambuzar, mas os frutos podem ser aproveitados para compor blends de chás, entrar em receitas de bolos, tortas e geléias. As cascas em infusão na cachaça a deixam com uma cor linda. As sementes, quando separadas da casca, devem ser limpas, secas ao sol e podem ser plantadas em até um ano. 

Se não é arvore para alimentar pessoas, saiba que maritacas e tucanos devoram os frutos, e as abelhas e borboletas adoram passear pelas flores arroxeadas. É antes de tudo, uma árvore ornamental e para atrair animais pro jardim. Sim, tarumã é PANC, mas não para se fartar. Um mimo do cerrado, ao menos da sua porção paulista. Será que tem mais tarumã por aí?
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