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domingo, 2 de agosto de 2015

Dilênia, Maçã de Elefante, Chalta. Compota cremosa.

Dilênias enormes, o pé estava carregado.
Já sei, você cansou de ouvir sobre essas frutas estranhas, essas frutas diferentes. Engana-se o caro leitor que espera que eu fale apenas de ervinhas nesse blog, pois falarei de frutas também. Inspirado pela visita ao sítio frutas Raras no último mês, resolvi essa semana falar de uma fruta muito interessante: a dilênia, maçã de elefante, fruta-da-pataca ou flor de abril. Chalta é seu nome na Índia, pelo qual você pode se arriscar a procurar por receitas.

São muitos os nomes pra essa árvore linda. Ela tem origem asiática e veio pra cá ainda no período colonial. A brincadeira era: coloque uma moeda dentro da enorme flor que, após alguns dias, a flor se fecha e forma o fruto com a moeda dentro. Ao levar a fruta para a Europa, era só abrir  e procurar pela moeda - ou pataca, como se dizia na época - a e mostrar que "nas Índias nasce até dinheiro em árvore!". Então, o nome, árvore-da-pataca. Lendas à parte, é uma árvore linda, como caule avermelhado, folhas picotadas e porte majestoso. Não planta-se muito nas calçadas, porque o fruto pesa quase 1kg e pode destruir um carro ao despencar, maduro.


Aliás, o que se vê nem fruto é. São as sépalas carnudas, fibrosas e espessas da flor que envolvem o fruto. O fruto, de fato, é uma esfera disforme, verde e babenta que fica no interior do "fruto" que realmente vemos. O núcleo. Dele, não consegui aproveitar nada.

Se por aqui a fruta sofre prejuízo, na Ásia é consumida como legume, porque é nutritiva, ácida e perfumada. Mas é preciso um pouco de técnica pra colher e preparar. Uma certa vez, nos meus 17 anos, eu e a amiga Larissa Rossi fomos passear na USP, ano de vestibular, conhecer o mundo universitário. Nos deparamos com aquelas frutonas lindas caídas no chão, e colocamos umas duas na bolsa. Poucas horas depois fomos sentindo um cheiro estranho, pungente, que foi enjoando, impregnando, até percebermos que vinha da bolsa: a dilênia madura tem cheiro forte de pneu queimado, cheiro de produto químico, e vai empesteando até não poder mais. Na época, me disseram ser a "fruta pão" que depois vim descobrir ser planta totalmente diferente.

A amiga Thais Mauad comentou esses tempos de uma receita com dilênia, um chutney. Eu estava cobiçando essas frutonas até que um dia tomei vergonha e colhi algumas no Ibirapuera. A dilênia verde não tem esse cheiro de queimado dos infernos, então fique tranquilo. Deve ser pequena, um pouco maior que uma maçã grande. As minhas estavam maiores ainda, mas ainda verdolengas.

A fruta é pesada e dura como um coco verde. Pra abrir, não meça esforços e vá direto pro facão, porque ela é dura e fibrosa. Uma faca doméstica não é páreo para a dilênia. A polpa, depois de cortada, oxida instantaneamente, indo do creme para a cor de ferrugem. Por isso, ao cortar a fruta, deixe de molho na água. As minhas tinham obviamente passado do ponto e eram pura fibra. Não consegui comer a fruta crua nem cozida, parecia bagaço de cana. O sabor é perfumado, delicado e tremendamente ácido, lembra manga verde com maçã verde. Não ia desperdiçar, por isso resolvi transformar a fruta em purê e fazer uma compota.

Após cortada, ela oxida imediatamente
e fica cor de ferrugem.
Para tirar as fibras, bati a fruta (em cubinhos pequenos) no liquidificador, até virar um purê. Sim, pique em cubos finos, porque ela é dura, e acrescente aos poucos com água até processar. Surpresa! Ela solta uma goma que transforma a massa num pudim. Muito viscosa, fica avermelhada e consistente como um mousse, coisa bonita de se ver. Dentro do liquidificador, em segundos espessa e dificulta a mistura. Sem muita esperança, joguei a massa na panela.

Purê avermelhado e consistente.

Foi ao fogo com um tico de água.

Na panela, a mágica aconteceu. O purê, que estava oxidado e firme igual um mousse, foi instantaneamente clareando ao ser aquecido, levantando um perfume maravilhoso e ficando amarelo clarinho. O vermelho ferrugem sumiu. Diluí com um pouco de água, passei numa peneira bem grossa pra tirar os fiapos do creme consistente. Depois, passei na peneira fina e obtive um purê. Adicionei 1/3 do peso de frutas em açúcar e cozinhei em fogo baixo até apurar. Reduz bastante, pensando que a maior parte da fruta é fibra. Três frutas médias renderam 330 gramas de geleia. O sabor é acídulo, perfumado e delicado. Poderia ser uma compota de maçã verde, acho que ninguém notaria a diferença. Casa perfeitamente com cravo e canela, fica divina com torrada.

Depois de cozido, branquinho. Usei um escorredor
 de pastel pra segurar as fibras, porque com a
 peneira não estava funcionando.

Eu sou sincero. Se for colher, colha verde, bem imatura, porque fibrosa como fiz dá trabalho. É bem dura na hora de cortar e rende pouco, portanto, vale a pena fazer bastante geleia. A vantagem, é uma iguaria saborosa, aproveita frutas que seriam desperdiçadas - nenhum pássaro que eu conheça consegue bicar a frutas. Ela cairia no chão e apodreceria, como outras tantas frutas. Façamos geleia!

Geleia. Deu certo!

19 comentários:

  1. ótimas dicas. Resido e Itaipava e recentemnte lendo o livro de Árvores Exóticas no Brasil de Lorenzi, identifiquei a linda árvore frondosa que temos no Jardim, com frutos permanentes todo o ano. Vou aproveitar esta receita e as muitas propriedades alimentícias e medicinais da Dilenia. Gratos.

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    1. Aproveite, ela frutifica quase o ano todo. O suco dela fica bem gostoso também - não esqueça de que precisam ser muito muito jovens, do tamanho de uma maçã.

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  2. legal seus comentários sobre a maçã de elefante, mas o "núcleo" que voce disse não ter aproveitado; pode se transformar num excelente remédio (anti inflamatório natural, para dores nas juntas tipo artroses, desgastes....) Deixar cada núcleo, em 500 ml de álcool descansando por 90 dias, protegido da claridade/sol. Depois desse período, passar no local. Tira a dor e não tem contra-indicação, por ser natural...

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    1. Maria, obrigado pelas dicas, vou aproveitar na próxima vez!

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    2. obs é para passar no local da dor não pode ser ingerido a menos que seja misturado em algum licor

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    3. obs é para passar no local da dor não pode ser ingerido a menos que seja misturado em algum licor

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  3. Nossa tenho que esperar 90 dias pra usar? E como fica a dor que estou sentindo?

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    1. Olá, não sei se entendi sua dúvida. Abraços.

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  4. nao precisa esperar 90 dias em sete dias bem guardado longe da luz ja pode usar eu uso e aprovo

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  5. nao precisa esperar 90 dias em sete dias bem guardado longe da luz ja pode usar eu uso e aprovo

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  6. nao precisa esperar 90 dias em sete dias bem guardado longe da luz ja pode usar eu uso e aprovo

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  7. Onde posso encontrar para comprar, poderia informar ou como posso encontrar, local, cidade, estado????

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  8. Onde posso encontrar para comprar, poderia informar ou como posso encontrar, local, cidade, estado????

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  9. em president prudente tem e ate perde cai pelo chao e jogam fora eu gostaria de saber como fazer o licor da fruta

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  10. Para fazer a lição de dores na juntas. Pode ser de um fruto colhido do chão?

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    1. Não sei informar sobre usos medicinais, apenas comestíveis! Abraços

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  11. E licor, será que dá para fazer?

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    1. Acredito que sim, mas o fruto não tem muito sabor quando verde e cru. Talvez com o fruto jovem cozido?

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