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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Solanáceas: maná, lulo, tomate do mato.

Em sentido horário, do grandão avermelhado: maná-cubiu,
tomate do mato, fisális e lulo. A fisális está aqui só a título
de comparação dos tamanhos. Mais sobre ela aqui.
As postagens estão atrasadas, eu sei, mas a vida restá mais corrida do que nunca. A quem acompanha o blog com frequência, deve ter percebi que as publicações rarearam, e acredito que em setembro o marasmo continuará aqui no blog. Em recompensa, acho que essa postagem vai satisfazer os ânimos de quem estava com saudades!

A viagem pro Sítio Frutas Raras rendeu bastante, e essa postagem é mais uma da sequência de frutas que ganhei e pude provar. Vamos falar de solanáceas? Pra quem não lembra ou não se acha no dever de memorizar, solanáceas são as plantas da família do tomate, da pimenta, da berinjela, da jiló, da batata e do tabaco. Claro, existem outras plantas comestíveis na família, como os juás-bravos, o tamarillo, a fisális e a jurubeba. E é desse grupo que estou falando.

Tirando a batata, que não é a coisa mais saborosa do mundo, os frutos desse grupo são sempre marcantes: ou picantes, como a pimenta; ou amargos, como a jiló, a berinjela ou a jurubeba. Ou ainda ácidos, como o tomate, o tamarillo e a fisális.

A primeira fruta que tive o prazer de conhecer esses tempos foi o tão famoso maná-cubiu (Solanum sessiliflorum). Por fora, parece um jiló, um jilózão maduro, rígido, firme e intensamente alaranjado. A película é grossa, e impede que o fruto murche ou se machuque, e ao contrário do tomate, aguenta semanas fora da geladeira. 

Maná-cubiu, do vermelho. Tem do amarelo também.
Eu sou sincero, e minhas expectativas com o cubiu eram altas. Depois que provei o tamarillo, ou tomate de árvore, ficaram maiores ainda, porque ele é delicioso, sabe a maracujás, goiabas perfumadas num blend de suculenta elegância. Pro cubiu, não esperava menos, porque são parentes.

Discretos, escondidos no CEAGESP.
Encontrei-o baratíssimo na feira do varejo do Ceagesp, e trouxe quilos pra casa. O vendedor me disse que se comia cru, em saladas. No carro mesmo, dei aquela limpada sem-vergonha num maná-cubiu madurinho e cravei os dentes no fruto. Ah, se eu soubesse! Na hora, todos os tamarindos e limões sentiriam inveja da acidez do fruto que eu tinha em mãos. Não consegui engolir o pedaço, acabei babando-me todo, porque comecei a salivar feito cachorro louco. Ainda bem que não há lei que puna os motoristas que dirigem babando com a boca azeda, ou eu teria sido advertido!

Polpa cremosa, muito ácida e firme. Maná-cubiu.
Bom, fruta de comer in natura o maná-cubiu não é. Mas presta-se para sucos, saladas e compotas. Eu particularmente acho que sobra-lhe azedume na mesma medida que falta sabor. Carnudo, firme, suculento, mas azedo demais. Sem perfume marcante, sabor de tomate verde. Para consumir o tantão de maná que comprei, tomei suco durante muitos dias a contragosto, porque era ácido demais para meu paladar e pedia açúcar. O melhor uso foi picadinho com cebola, compondo um vinagrete fenomenal para acompanhar farofa crocante e feijão preto. Mas afinal, o que não fica gostoso com feijão e uma boa farofa? 

Mas antes que você ache que é tudo difamação, ele presta-se para um exótico vinagrete que dispensa vinagre, de ácido que o fruto é. Os usos devem ser os mesmos do tamarindo: refrescos, chutneys, balas ácidas.

Da esquerda pra direita: tomate do mato, lulo e maná cubiu.
O primo do maná é o lulo (Solanum quitoense). Quando o amigo Ruben, da Colômbia, hospedou-se aqui em casa, contou-me dessa fruta tão típica e ficou surpreso de ser uma fruta rara aqui no Brasil. Na realidade, ela é consumida e até conhecida em algumas regiões, mas não é nada popular. Ambos frutos de solanáceas aparentadas, embora o cubiu prefira a umidade abafada da região norte e o lulo, a altitude da Colômbia. A pele do lulo é mais macia, o tamanho é menor e parece igualmente uma jiló bem madura. Ácido igual, embora mais manso e com sabor que lembra tomate. Ganhei poucos, então acabei comendo-o na salada e o outro, refogadinho na forma de molho para acompanhar arroz integral. Saboroso, ácido, exótico. Deve render drinks fantásticos. Alô mixologistas, xaropes, pingas, licores de lulo, sucesso total.

Tomate do mato é o segundo de cima para baixo.
A alegria da viagem ao Frutas Raras foi o tomate do mato (Solanum diploconos). Nativo, muito parecido com um tamarillo, forma oval, pele rajada, entre o verde e o amarelo.  A planta é linda e não tem aquele aspecto de pé de jiló do lulo ou do cubiu, é uma planta mais elegante com flores lindíssimas. Nativo do Sul e Sudeste, seja nas floretas ombrofilas ou semidecidual, ele ocorre sempre nas regiões sombreadas, de solo fértil e úmido. 

A casca é dura e a polpa é líquida, ácida e perfumadíssima. Nunca provei nada parecido, exceto o tamarillo ou tomate de árvore. São parentes próximos, aliás, o que é denunciado pela semelhança entre eles. O tomate do mato dá sucos fantásticos, mas o gostoso é mordê-lo e sentir a polpa explodir na boca. O Helton disse que aproveita a casca dura pra fazer assada tipo tomate seco, e deve ficar uma iguaria. Plantei algumas sementes, mas ainda não vingaram. Estou apaixonado pelo tomate do mato. Mais informações sobre ele na página do Helton. Recomendo clicar no link para ver as fotos das flores, que são belíssimas. Quem quiser prová-lo, terá que viajar pra Campina do Monte Alegre.



Deve haver muitas solanáceas a serem descobertas. O Helton me confidenciou que, apesar da má-fama, boa parte das solanáceas possuem frutos comestíveis quando maduros. Palavra de frutólogo, eu acredito.

Eu guardei sementes de todos, e tentei plantar um pouco de cada. Obviamente o tempo está muito frio e nenhum germinou ainda, passado quase um mês do plantio. O tomate do mato tem longa espera antes de germinar, então ainda estou com os dedos cruzados aqui.

2 comentários:

  1. Que bom você falar bem do tamarillo! Li opiniões bem divergentes. Mas acho a planta linda!

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  2. Fiz muitas mudas do lulo (também conhecido como naranjilla) que meu vizinho deu para fazer um delicioso suco. Ele cresce bem aqui nas altitudes de Campos do Jordão. Ainda aparecerei em algum pic nic de trocas de mudas com ele.
    David Kim

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