Páginas

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sítio Frutas Raras

Quanto mais a gente sabe, mais podemos perceber que conhecemos pouco, muito pouco. Foi com esse olhar de criança que voltei fascinado desse local. Já havia lido sobre o trabalho do Helton Josué há alguns anos, porque invariavelmente ao procurar algo sobre frutas nativas, você se depara com o material do Sitio Frutas Raras.

Aliás, eu morria de curiosidade de conhecer o local. A Neide Rigo, do come-se, fez o convite no começo do ano, e eu até já tinha me esquecido da proposta. Aproveitando a deixa, fomos numa pequena caravana, e não esmorecemos na animação nem diante de um dia chuvoso, frio e nevoento, daqueles que, se não fosse o incrível destino, melhor seria ter ficado nas cobertas.

O sítio fica em Campina do Monte Alegre, interior de São Paulo, uma cidade pacata e fresca. A viagem aqui de São Paulo não é curta, mas em boa companhia, chegamos muito rápido.

Uma palavra para definir o sítio? Fantástico. Fabuloso. Entrar no mundo do Helton  e sua esposa Emilene é mergulhar num mundo a parte, um mundo tão rico e biodiverso que chega a dar uma indignação a nossa ignorância perante à abundância da natureza.

O Helton é fruticultor. Ou seja, é botânico, contador de histórias, ecólogo, geógrafo, historiador e bom de prosa. São mais de mil e trezentas frutíferas, nativas e exóticas, que ele sabe na ponta da língua o nome científico e todos os nomes populares. E acredite, são muitos nomes populares, especialmente os nomes de origem indígena. Acutirém, aningaiba, guaticuruzu, manduirana, ibatirana, taninbuca, e por aí vai. 

Como bom glutão que sou, tive meus sentidos virados do avesso. Frutas salgadas, doces, ácidas, perfumadas, crocantes, viscosas, esponjosas e toda a sorte de deleites que envolvem os sentidos em busca de referências. "Ah, uma mistura de banana e maracujá". "Hum, lembra nozes com suco de uva". "Parece bananada com algo que não sei explicar". Quando você entra no sítio Frutas Raras, você viaja, pra longe, pra frutas da Ásia, da África. Para frutas amazônicas, do cerrado, da restinga. E fica pensando: Porque qual razão no mercado só tem maçãbananamamãouvamelãoabacaxilaranjalimão? Cadê a biodiversidade?

No sítio, cada árvore é uma descoberta. Folhas, formas, flores. Era inverno e não são tantas assim as frutas na época, mas tivemos a sorte de provar várias. Eu perdi a conta, mas avistamos e provamos pelos menus umas trinta, por baixo. Para a nossa felicidade, era só anotar o nome da fruta preferida e depois ver se havia mudas - produzem de mudas orgânicas a partir de sementes num viveiro que fica dentro da propriedade. Nenhuma muda com placa, uma mistura de centenas de mudas das mais diversas espécies. Helton habilmente desliza por entre as leiras e traz a muda encomendada. Localiza os pequenos tesouros só de olhar. Para um leigo na fruticultura, como eu, uma porção de mudinhas indistintas. É preciso ser alfabetizado para poder ler a linguagem das plantas - Helton é fluente nelas. E autodidata.

Acha pouco? Ele está fazendo um canteiro de plantas alimentícias não convencionais que ele mesmo encontra. Eu aqui, na serralhinha, picãozinho, mastruzinho. Ele conhece as plantas esquecidas do povo da região, coisas que ainda não foram pesquisadas, relatadas, mas que se come, ele jura que sim. Surpreende um parente do ipê trepadeiro que dá raízes tuberosas, assim como um assa-peixe trepadeiro com batatonas comestíveis, que ganhei muda. Gengibre-azul nativo, também com raízes comestíveis. E ervas de todos os tipos. Alfaces silvestres que nunca ouvi falar, ora-pro-nobis de folhas douradas, tomates nativos que explodem na boca, folhagens com gosto de tucumã e nozes. Saí de lá tão bombardeado de informações e emoções que levei duas semanas para decidir o que colocar nesse texto.

Cabe a esse humilde relato toda a minha felicidade de conhecer esse grande pesquisador e grande pessoa que é o Helton e sua esposa, que nos receberam tão bem. Eu poderia ter fotografado mais, muito mais, mas estava com a cabeça e as mãos ocupadas para poder pensar no relato.

Emilene e Helton, Sítio Frutas Raras.

Todo o grupo, sempre seguindo o mestre Helton

Pé de mamey carregado. Sabor parecido com
compota de abóbora. Foto de Juju Gago.

Banana com semente, Musa
acuminata. A pouca polpa é bem doce! Foto de Juju Gago.

Randia, disputada pelos pássaros. Polpa cremosa, negra,
com gosto de bananada. Intrigante. Foto de Juju Gago.

Maracujá silvestre que se abre em estrela. Foto de Juju Gago.

Cacto com sabor de kiwi. Opuntia. Foto de Juju Gago.

Tapaculo, parente do mamão, carregado. Foto de Juju Gago.

Tapaculo, delicioso mix de mamão e maracujá.

Framboesas ácidas. Foto de Juju Gago.

Babaco, mamão nativo, para fazer doces. Foto de Juju Gago.

Urucum vermelho, magnífico. Foto de Juju Gago.

Araujia, uma apocinácea que come-se igual chuchu. As
sementes são macias como seda. Foto de Juju Gago.

Tomates silvestres que explodem na boca. Raridade e novidade,
ainda pouco documentado. Foto de Juju Gago.

O viveiro. Foto de Juju Gago.

Ora pro nobis dourada. Rara variedade com folhas
douradas e rama rosa. Linda. Foto de Juju Gago.

Fruto de um gengibre, parente da pimenta da costa.
Foto de Juju Gago.

Opuntia carregada, deliciosa. Foto de Juju Gago.

Helton delicadamente juntando as frutas
sem se espetar. Foto de Juju Gago.

Cactario, com a nossa biodiversidade espinhenta.

Nossa fotografa, Juju Gago, provando uma ácida goiaba.

Zilo, parente da jaca, gigante.

Fruto do Jua, perfumado e intrigante.



Chapeuzinho vermelho, vulgo Drika.

Lindos mamey


Umas fruta da restinga, a única fruta branca comestível
que conheço.

Murici guaçú, tem sabor de bolo de coco. Doideira!

Juju, Drika, Neide, Rui, Marcos

Pancs na horta

Panc descoberta pelo Helton, tem sabor de tucumã e nozes.

Eu (maníaco da sacolinha) e Helton.

10 comentários:

  1. Guilherme, querido, fiquei encantada com seu site! Tirando gestora ambiental, que não sei precisamente o que é, no restante somos muito parecidos, principalmente pelo interesse por plantas nativas. Já tive um razoável acervo de plantas medicinais, apícolas, para pássaros( estas ainda preservo), para micos etc..
    Não imagina meu "olho gordo" no Sítio Frutas Raras. Infelizmente não enxergo mais as formigas e elas acabaram com meus cará-moelas, roseiras, e outras coisas mais. Mas não desisto. Vou acompanhar seu blog com muita alegria. Grande abraço, Ana Maria.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Ana, gestor ambiental é um curso interdisciplinar voltado pra gestão do meio ambiente, visando a manutenção de uma sociedade, de um ambiente e de uma economia sadias. Ou seja, um pouco de tudo, haha. Se tiver a chance visite-os, é lindo! Logo em breve teremos uma postagem sobre como controlar as formigas de forma caseira, aguarde. Abraços

      Excluir
  2. Olá! Parabéns pela matéria, me deixou aguada para ir ao sítio! Ele é aberto à visitação? Ou é preciso agendar horário? Obrigada, Marissol.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, obrigado pelo comentário! Acho que é preciso marcar horário para a visitação sim, bom entrar em contato com eles antes, até mesmo para ter informações mais precisas de como chegar. Se for lá, depois nos conte! Abraços

      Excluir
  3. Olá! tem o nome dessa com gosto de tucumã e nozes?

    ResponderExcluir
  4. Vi a reportagem sobre o Helton e seu sítio em um vídeo da BBC. Apesar de falar da grandeza da pesquisa e do trabalho, não se aprofundava em exemplos de frutas. Fiquei muito feliz de voltar ao seu site e ver um post recheado de tantas fotos do local. Deu água na boca... Fantástico. Obrigada por dividir com os leitores a experiência!

    ResponderExcluir
  5. Olá, gostaria de saber o nome dessa frutinha branca comestível que vc fotografou, tenho o pé em casa mas n sei o nome.

    ResponderExcluir
  6. Eu nao conheço o sitio mas ja comprei varias mudas do Sitio Frutas Raras e eles sao muito honestos e atenciosos.

    ResponderExcluir
  7. Muito bom se tivéssemos mais pessoas assim no mundo dando importância a natureza o mundo seria melhor

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...