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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Flores comestíveis: Porque sim e Porque não

Há não muitas semanas houve uma reportagem do Globo Repórter sobre produtos orgânicos. Dentre vários produtos, foram mostradas as flores da capuchinha e o repórter reagiu surpreso à oferta: desejaria provar flores?

Provavelmente o repórter teve uma confusão de nomenclaturas. Quem já comeu alcachofra, alcaparra, couve flor e brócolis já sabe que flores são comestíveis e deliciosas, mas nem sempre lembrados como flores, e sim como legumes. Ainda, chá de camomila, de hibisco, de lavanda. Quem nunca?

Comer flores não é nada especial, muito menos nada novo. Hoje em dia já pensamos em alta gastronomia, mas é fato que a moda das flores vem e vai. Bonitas muitas vezes, saborosas quase sempre, diversas culturas ao redor do mundo tem suas flores comestíveis.

Na Ásia oriental, temos as flores de plumeria e de pata-de-vaca em diversos pratos, assim como as flores de jasmim aromatizando chá e flores de pândano para aromatizar doces. No Oriente médio e áfrica, doces ao perfume de água de rosas e flor de laranjeira são regra geral. Na Europa, clássicos os licores de rosas, de violetas, assim como flores de borragem e amor perfeito nas saladas. Na Itália, as flores de abobrinha recheadas são uma iguaria. A França é célebre por seu prato com flores e folhas do campo, criado há décadas nos restaurantes nouvelle cuisine da família Bras, o gargouillou. Descendo aqui pra Amércia Latina, flores de agave, de yucca e de eritrina entram em diversos pratos, especialmente na parte central do continente.

No Brasil, contudo, são poucos os pratos tradicionais feitos com flores - eu pessoalmente não me recordo de nenhum. Na realidade, me recordo - o coração de banana refogado típico de algumas regiões do interior. O problema é que o coração da banana não é a flor, e sim um intrincado sobreposto de brácteas, e não flores.

Flores são boas opções para enfeitar a comida, mas podem ser um bom acompanhamento também. Aliás, parece que elas são, em geral fadadas a acompanhar pratos, sendo apenas a "decoração". Elas são uma boa opção, afinal,?

Existem razões para não comermos tantas flores, mas existem também boas razões para comermos mais flores. Primeiro, vem o nosso conceito de flor. Nem sempre todas as partes são comestíveis - em geral, as pétalas são, mas as sépalas podem ser duras e venenosas. A parte que contém o pólem pode dar alergias em pessoas sensíveis, então é bom ficar atento. E claro, muitas flores são inteiramente venenosas. Assim como as demais partes das plantas, podem ser realmente perigosas, então não, você não pode comer qualquer tipo de flor.

Na outra mão, comer flores pode ser muito interessante especialmente por suas propriedades. Nutricionalmente, podem ser ricas algumas vitaminas, mas são, por via de regra, pobres em calorias, carboidratos e proteínas. É até fácil pensar no porque. Lembre-se que a flor é um órgão de baixíssima duração, algumas semanas no máximo. A maior parte das flores duram poucos dias, algumas menos de um dia. A estratégia da planta é economizar recursos, e seria um grande desperdício fazer uma flor cheia de nutrientes, sendo que ela vai durar tão pouco. Os frutos, esses sim, carregarão as sementes, e a planta prefere depositar essa energia neles. Portanto, a composição das flores é predominantemente água, fibras e pigmentos. Estes, em geral, atuam no nosso corpo como antioxidantes, então não são fundamentais pra nossa saúde, mas ajudam a longo prazo.

Para quem mora em grandes cidades, há outra vantagem nas flores que está exatamente na sua curta duração. Flores são, em geral, limpas. Como duram muito pouco, não dá tempo de acumularem tantas partículas e toxinas do ar, como acontece com as folhas, que podem durar anos.

Como saber qual pode e qual não pode ser consumida? Existe um livro maravilhoso, e acho que já falei dele antes, chamado "Entre o Jardim e a Horta - as flores que vão para a mesa", de autoria de Gil Felippe, pesquisador botânico que faz publicações belíssimas e acessíveis. Vale o investimento!

Mais uma vez, antes de falarmos das flores comestíveis, falemos das não-comestíveis. Aqui, dou uma lista breve das mais comuns, mas claro, existem centenas de outras igualmente venenosas.
No site do Sitio Curupira, li certa vez um tema definido pelo autor como "Sindrome do Jardim Vitoriano", e o achei fantástico. É uma tradição, uma síndrome cultural surgida no período Vitoriano, numa demonstração de riqueza, era corrente não plantar nada comestível no jardim - eis a origem do jardim de hoje, dissociado do termo "horta". Assim, quem tinha apenas plantas não comestíveis, muitas vezes venenosas, fazia referência a uma classe social elevada, rica, que não precisava plantar alimentos no quintal porque poderia comprá-los. Ou seja, são abolidos os alimentos do jardim, deixando-o apenas ornamental, e em muitos casos, bem venenoso. E e certa forma, inútil do ponto de vista alimentar.

Essa tradição de jardins venenosos persiste até hoje, embora não saibamos o porque preferimos hortências e vincas a alfaces, repolhos e almeirões. De qualquer forma, as plantas típicas de jardim tendem a ser venenosas. Muitas ornamentais o são. Fique de olho com crianças e animais, e não seja curioso de prová-las.

Fique longe, principalmente, de:

Alamanda

Anturio

Lirio da Paz

Azaléia

Datura, saião.

Manacá

Dama da Noite

Coroa de Cristo

Hortencia

Camarão amarelo

Iris, todas.

Espirradeira, oleandro.

Poincétia, bico de papagaio.

Vinca




Um comentário:

  1. Nossa! Tenho quase todas estas aqui no sítio. Tenho que tomar cuidado com as crianças...Vou alertá-las!

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