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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Tanchagem: Flores com gosto de cogumelo

Calma, dessa vez não é propaganda enganosa. A planta de hoje é realmente poderosa e com diversos usos medicinais - e não só as folhas, como as sementes. Ela tem muitos nomes, mais o mais comum: tanchagem. Muita gente a conhece com fins medicinais. Mas sabia que ela também é comestível?

A tanchagem no Brasil pode se referir a duas espécies do mesmo gênero, com propriedades e usos muito similares. Temos a Plantago major e a Plantago lanceolata. Como o uso e preparo das duas é muito parecido, não farei cerimônia em unificar tudo sob o nome comum de tanchagem. Se preferir, como é mais comum no sul, tansagem ou transagem. O termo transagem eu até ousaria dizer que remete à trança, devido à forma da inflorescência da Plantago major. Puro palpite, claro.

Grama infestada de tanchagem: sem caule
Ambas plantagos gostam de uma condição em especial: umidade. Podem até tolerar pleno sol, desde que consigam uma boa fonte de umidade no solo. Outra coisa, a tanchagem é uma planta de crescimento relativamente lento em relação à outras plantas, e quando ela ainda é pequena não aprecia lugares muito perturbados, como calçadas onde possam ser pisoteadas, gramas cortadas com muita frequência ou locais com terra muito revolvida. Elas em geral vão brotar coladas a muros, próximo a pés de frutas, naquela parte do jardim que ninguém vai, no meio de um canteiro antigo, ou seja: qualquer lugar que não seja mexido com frequência, que tenha umidade e ela possa se abrigar.

Após encontrar esse local, aí sim, ela cresce soberana, espicha suas folhas gigantes e vai dando um chega pra lá em quem estiver no entorno. Ela não tem caule: todas as folhas brotam direto do chão, enquanto o resto da planta fica enterrada. Daí descobrimos quem odeia ela: os jardineiros e os paisagistas. A tanchagem, quando nova, se confunde na grama. Depois de um tempo, adulta, destaca com suas folhonas compridas, mas daí já é tarde demais para tentar erradicá-la. Passar máquina junto com a grama não resolve: ela volta maior e mais forte. 

Toda folha tem exatamente linhas no comprimento.
Essa aqui possui 7.
 A inflorescência, em detalhe, é essa espiga marrom,
que parece uma trança.

Inimiga dos jardineiros, amiga da saúde. A tanchagem tem uma série de propriedades comprovadas sendo usada para tratar problemas de pele, picadas de inseto, alergia, assim como problemas internos, como má digestão, úlcera, como analgésica e antiinflamatória. Isso porque é um coquetel médico: mucilagens, alantoina, aucubina, derivados do ácido caféico, flavonóides e glicosídeos iridoides. Recebeu picada de inseto, fez algum corte? Lave bem as folhas, amasse bem (ou mastigue, como fariam os irlandeses) e aplique sobre a ferida. Ajuda muito a aliviar a dor e no processo de cicatrização.

As folhas

Agora a questão polêmica: tanchagem na cozinha? As folhas podem ser consumidas, tanto jovens quanto velhas, porque são ricas em proteínas, cálcio e vitaminas A, E e K. O problema é que as folhas ficam fibrosas depois de um tempo. Continuam comestíveis, mas deixam de ser palatáveis. Então, de preferência para as folhas bem jovens ainda. Nas folhas mais velhas, você pode escaldar e partir em pedaços, depois ir puxando as fibras, que saem igual fios de linha, finos e longos. Acho muito trabalhoso, então parta pra folhas mais novas. Ah sim, podem ser comidas curas ou cozidas.

O sabor é suave e a textura é neutra. Talvez um panelão de tanchagem refogada seja pedir demais, mas que tal algumas folhinhas para incrementar uma salada, ou num refogado de couve ou espinafre, ou cortada bem fininha no molho de macarrão?

As flores

As flores da tanchagem tem uma característica muito distinta: elas tem sabor de cogumelos. Especialmente as flores da Plantago lanceolata, mais comum no sudeste e sul do Brasil. Para serem usadas, devem ser colhidas frescas, em floração, e usadas para algum molho ou caldo. Ainda, podem ser desidratadas para serem usadas posteriormente. Outra dica é colher, secar a sombra e triturar com sal (2 parte sde flores secas para 1 de sal), para deixá-lo saboroso. (Nas flores das Plantago major eu não senti o sabor de cogumelos que senti na outra espécie, mas posso ter colhido a haste floral já velha demais.)

Flores da P. lanceolata: no ponto para serem colhidas.
As sementes

Pequenas, pretas e ovaladas, elas são ricas em fibras e mucilagens e ajudam o intestino preguiçoso - e não é lenda, foram constatadas cientificamente. São recomendadas para casos peculiares: pacientes que fizeram cirurgias delicadas em artérias, olhos ou cérebros, e que não podem fazer força ao defecar - o que pode abrir pontos e estourar vasinhos. Ou seja, ela ajuda a controlar o trafego intestinal. Mas eu acho que colher uma quantidade suficiente pode ser tedioso. Na dúvida, você a encontra em farmácias sob o nome de Psyllium, e é bom consumir sob recomendação de um nutricionista ou médico capacitado.


GUIA DE IDENTIFICAÇÃO
Plantago lanceolata e Plantago majorPlantas anuais, com até 30 cm de diâmetro. Folhas de bordas levemente recortadas ou lisas, percorridas por 5 ou 7 nervuras, dispostas em forma de roseta. P. lanceolata tem folhas finas, de até 3 cm de largura, e aste floral de até 35cm, com flores concentradas na ponta, em forma de espiga, na cor branca.  P. major tem folhas arredondadas de até 20 cm de largura, flores agrupadas em forma de espiga ao longo de toda aste.Ambas são acaule, com raíz principal profunda e raízes menores no entorno.  

São ainda encontradas no Brasil:  Plantago australis, P. brasiliensis, P. catharinea, P. coronopus  P. commersoniana, P. guilleminiana, P. penantha, P. tomentosa, P. turficola. Contudo, a maior parte das pesquisas direciona para a P. major e P. lanceolata como as mais comuns e mais usadas. Para consumir as outras espécies, consulte antes a bibliografia especializada.

LOCAL DE OCORRÊNCIA
Qualquer local. Sem exigências em relação ao solo, gosta mais de pleno sol e solos úmidos. Especialmente grande sem locais de pouca perturbação e gramados.

MODO DE PREPARAÇÃO
Folhas cozidas ou cruas, jovens. Folhas velhas muito fibrosas. Folhas saborosas para dar sabor a caldos, sopas e molhos.


Receita

Molho cru de castanhas com tanchagem  (Para macarrão)
(Para 4 pessoas)

Essa receita é bem simples e nutritiva, rende um molho cremoso e aveludado que fica com sabor entre o molho branco e o pesto. Pode ser usada acompanhando a massa de sua preferência.

Ingredientes:

Molho
40 folhas pequenas de tanchagem, novas e tenras, picadas finamente
1 xícara de castanha de caju torrada, e sem sal
1 dente de alho pequeno
2 col sopa de cebola picadinha
3 folhas de cebolinha picada finamente
5 folhas de manjericão picado finamente
1 col sopa óleo
sal e azeite a gosto

Passo 1: Jogue água morna nas castanhas até cobrí-las, espere amornar e deixe-as em imersão num frasco na geladeira até que hidratem (de 2 a 12h). Escorra a água e triture-as no liquidificador até obter um creme liso e claro. Para facilitar, adicione as castanhas aos poucos com água fria, às colheradas. Tempere com sal e azeite.
Passo 2: Refogue a cebola e o alho num fio de óleo, até a cebola ficar transparente. Adicione a tanchagem finamente picada e refogue até murchar (3 minutos).
Passo 3: Retire do fogo, adicione o creme de castanha, a cebolinha e o manjericão picados finamente. Misture delicadamente. Acerte o sal.





8 comentários:

  1. Tenho o costume de comer tanchagem cortada fina e misturada ao arroz ou macarrão. Refogada ainda não provei, vou experimentar.

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  2. Sempre usei o chá de tanchagem ou suco para inflamação na garganta, atualmente não tenho tanto problema com isso, mas durante a minha infância minha mãe sempre preparava pra mim, realmente é uma planta com grandes poderes curativos.

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  3. Respostas
    1. Não é comum pra vendas melhor cultivar um canteiro

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Respostas
    1. Não é comum achar pra vender melhor cultivar um canteiro. E muito fácil só jogar as sementes que logo nascem

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    2. Não é comum achar pra vender melhor cultivar um canteiro. E muito fácil só jogar as sementes que logo nascem

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