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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Serralhinha, falsa-serralha, emília. É de comer?

Serralhinha. É seguro consumir?

Muito antigamente, talvez pensando nos nossos ancestrais vivendo em um mundo sem a ciência como a conhecemos, alimentar-se era um ato possivelmente perigoso. Para determinar se uma planta era venenosa, era questão de sorte. À medida que as plantas iam sendo consumidas, as pessoas serviam de cobaias. Se muitos consumidores de certa espécie adoeciam, atribuía-se a causa a aquela planta, e assim fomos acumulando conhecimento suficiente para termos complexos sistemas de medicina e fitoterapia que compõe os conhecimentos tradicionais, como o dos nossos índios, por exemplo. E evitando as espécies venenosas.

Hoje em dia, por sua vez, não precisamos ser cobaias de experimentações porque somos amparados por uma ciência relativamente confiável - podemos saber se uma planta tem compostos tóxicos apenas realizando análises laboratoriais. Ninguém precisa morrer ou adoecer para termos certeza (claro, isso é questionável especialmente no teste com novos fármacos ou ainda com os transgênicos). Precisamos nos apoiar nesse conhecimento. E quem mesmo não gostando da ciência, quer queira quer não, depende e usufruí dela. Ou vai dizer que você não toma medicamento, não lê rótulo de alimento nem nunca foi ao médico?

Estava esses tempos cismado com a falta de referências a respeito da "comestibilidade" da pincel de estudante, ou emília, ou serralhinha. Aquele matinho de flores vermelhas em forma de brocha, difícil de confundir, afinal, são poucas as plantas espontâneas de flores vermelhas. Há poucos estudos a respeito de seu consumo, apesar de ser amplamente consumida e relatada em estudos etnobotânicos. 

O conhecimento popular por vezes conflita com o científico. Não encontrei muitos estudos a respeito das propriedades alimentares da emília, ou falsa-serralha, ou serralhinha, ou pincel de estudante. Há sim relatos que a citem como consumida por certas populações, mas nenhum estudo sobre seu impacto na saúde. O material que achei foram especialmente relatos e levantamentos etnobotânicos em diversas comunidades que citam seu uso. Porém, trabalhos focados nos aspectos nutricionais e farmacológicos da planta são escassos. Na realidade, encontrei uma série de indicações de que a planta possui alcalóides do grupo das pirrolizidinas, potencialmente tóxicos para o fígado.

Um certo estudo me chamou a atenção, pela sua afirmação: Os resultados indicam que consumidores de Emilia sonchifolia tem sério risco de envenenamento devido ao teor de pirrolizidinas nessa planta. "These results indicate that consumers of E. sonchifolia are at high risk of poisoning since the most toxic retronecine- and otonecine-type, twelve-membered macrocyclics are the dominant PAs in this food plant."

Não consegui localizar nenhuma informação a respeito do consumo dessa planta em humanos, especialmente tratando-se da segurança para a alimentação. No mais, há indícios, como o estudo supracitado, de que tenha substâncias capazes de causar câncer de fígado. Como tenho percebido que aqueles que consomem as plantas não convencionais são especialmente conectados com questões relativas à alimentação saudável, achei relevante dar esse alerta. Para quem concorda ou discorda, sugiro dar uma pesquisada sobre o assunto para ter certeza que não estou inventando nada. Antes de mais nada, acho que precaução, especialmente na alimentação, nunca é demais. 

Existem sim referências citando que a Emilia sonchifolia é consumida, mas nenhuma discussão a respeito de seus efeitos na saúde das populações que foram descritas como consumidoras dessa planta. Considerar algo como consumido é diferente de considerar algo como comestível. 

Por outro lado, o que significa consumo? Alimentar-se esporadicamente da planta? Consumir todo dia? Quanto? Não há sugestão de dosagem segura, de fato. Mas já consumi com relativa frequência, e conheço muita gente que consome desde criança. Os pais da Neide Rigo, do Come-se, por exemplo. É preciso pensar também no metabolismo de cada um, na forma de preparo, na interação com outras substâncias. O ideal, sempre, consumir a planta cozida e antes do período de floração, época em que os teores de alcaloides aumentam consideravelmente. 

Outro grande problema que encontrei foi que as pessoas não sabem reconhecer as espécies. Procurei no google por receitas com a planta, e fiquei surpreso ao descobrir que outra planta tem sido consumida, sendo que ela possui ainda menos estudos a respeito de sua "comestiblidade". Duvida? Dá uma googada e vai ver, predomina o uso da espécie Emilia fosbergii, de flores avermelhadas. O problema é que a recomendação de consumo é para a Emilia sonchifolia.

A serralhinha da qual se tem pouca informação, falsa-emília,
de flores vermelhas. Por acaso, a mais consumida.
Nome científico Emilia fosbergii.
Foto retirada do Manual de plantas infestantes,
Moreira e Bragança (2011).
A verdadeira serralhinha ou emilia possui flores na cor lilás.
É essa que os estudos se referem quando citam a espécie.
Nome científico Emilia sonchifolia.
Foto retirada do Manual de plantas infestantes,
Moreira e Bragança (2011).
A verdadeira serralhinha (Emilia sonchifolia) possui flores lilás, pequenas, enquanto a espécie mais consumida tem sido a de flores vermelho coral (Emilia fosbergii). Então, primeiro, se quiser consumir a verdadeira emília, serralhinha ou pincel de estudante, a espécie deve ter flores lilás. (Cuidado para não confundir com o mentrasto, ou Ageratum conyzoides, de flores igualmente lilacinas).

Aqui, então, vou literalmente ficar em cima do muro e não recomendar o consumo, mas deixar claro que essa planta é consumida há muito tempo por muitos grupos, especialmente em cidades no interior do sudeste e sul, onde a planta ocorre com mais frequência. Se for consumir, evite crua, em floração, em grande quantidade, com muita frequência e se tiver problemas hepáticos, por precaução.

2 comentários:

  1. Eu mesma tive dúvidas a respeito de determinada planta se era ou não comestível. ..enviei email a você e até hoje infelizmente não obtive resposta. Ainda bem que uma senhora idosa me cedeu seus conhecimentos sobre a planta em questão.

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  2. Bom! eu como essa da florzinha vermelha desde criança, aprendi com a minha mãe que também como desde criança. Já tenho 38 anos e ainda não morri. Aqui no sítio também tem essa da florzinha lilás mas essa eu ainda não experimentei

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