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terça-feira, 26 de setembro de 2017

Orelha de Padre, Mangalô ou Lab Lab: feijão PANC

Variedades de mangalô colhidas em hortas urbanas de
São Paulo entre 2016/2017.
Aqui em São Paulo, cada vez mais vejo o feijão lablab, sendo cultivado nas hortas urbanas. Ainda considerado uma PANC, tem seu consumo ainda restrito a poucas pessoas, embora fora do Brasil seja considerado um feijão comum. E da planta tudo se come: os grãos, as vagens, as folhas e até as batatas.

Flores se formando
Ele é conhecido no Brasil por três nomes: orelha-de-padre, feijão mangalô ou lablab. Orelha de padre deve ser porque as vagens são curvas, igual a orelha de um senhorzinho padre. Mas eu tenho pavor de comida com nome de partes de corpo, de bicho e de gente. Então, gosto de lablab, que é seu nome científico. Antes, Lablab purpureous. Agora, com a revisão dos gêneros, Dolichos lablab. Pronúncia: "do-li-cos-labi-labi".

De especial, ele tem uma característica marcante de cultivo: cresce rápido, produz muito e fica enorme. Nos EUA, ele é chamado de Hiacynth Bean e é usado para cobrir cercas, treliças e enfeitar varandas. É uma trepadeira muito rústica, com flores roxas e vagens roxas na variedade Ruby Moon, a mais comum no uso paisagístico.

Variedade Ruby Moon, não comestível. Foto daqui.
Das variedades que plantei, tento manter em cultivo especialmente de grãos brancos, que são mais suculentos e graúdos. A planta fica o dobro do tamanho das demais, e é extremamente agressiva. Plantei num canteiro ao lado de casa, e ela preferiu crescer por entre as telhas, virando um cenário do Jumanji. Cada rama chega a crescer mais de 5cm por dia. Em um mês, fechou a varanda.

Varanda em abril.

Varanda em maio.

Aqui no Brasil,foi trazida por imigrantes - é comum na Ásia e África, e muito consumido por lá. Aqui o consumo é mais raro, porque é um feijão menos conhecido.

Nos bairros orientais, encontro a variedade branca à venda, bem graúda e ótima para caldos. Em Dublin, a variedade de grãos vermelhos e a de grãos pretos eu via nas lojas africanas, especialmente da Nigéria. Aqui no Brasil são mais comuns as variedades de grãos escuros.

Em apenas uma semana, me dei ao trabalho de coletar todas as variedades que eu encontrei - fiz a besteira de descartar as vagens, que também são tão distintas entre si. Algumas variedades tem vagens pequenas e sementes grandes, enquanto outras tem as sementes pequenas e vagens grandes - não há correlação. Algumas vagens tem três sementes, enquanto outras chegam a mais de 6. Algumas são mais fibrosas, outras menos. Como conclusão: há a necessidade de sistematizar as variedades que temos, assim como é um indicativo de que as hortas urbanas são espaços para a manutenção dessa diversidade.

As vagens variam em tamanho e número de grãos.
Algumas são macias, outras muito duras.
As variedades de sementes brancas, em especial as que compro nas lojas chinesas, enquanto verdes, são cobertas por um tipo de cera oleosa de aroma muito forte, que desaparece após o cozimento (mas impregna as mãos). Outras, como a de grãos graúdos cor-de-vinho, tem vagens grandes e suculentas, sem aquele aroma forte. Ou seja, são muitas variedades, devem cruzar entre si e precisam urgentemente serem catalogadas.


Variedades caramelo, marrom e branca.

Variedade de grãos pretos.
Uma coisa eu sei: quem tem uns pés de lablab crescendo na cerca não vai ficar sem comida por um bom tempo. As vagens são comestíveis até 15 dias depois da polinização. Cozidas, gostosas e suculentas como as ervilhas de vagem torta. Para consumir, é preciso tirar aquela fita fibrosa nas margens igual a ervilha. 


Folhas e flores da variedade Branca (das mercearias chinesas)

Se quiser esperar, depois de umas 3 semanas, as vagens terão feijões grandões dentro delas, que podem ser usados como feijões verdes. A vagem em si estará fibrosa, mas os feijões são adocicados e muito macios. Mais um pouco, a vagem começa a ficar transparente e os grãos, com a cor final da semente, que vai amadurecendo - quanto mais maduros, mais tempo de cozimento demandam. Ficam deliciosos quando cozidos, usados em saladas e vinagretes, ou ainda no lugar de ervilhas.

Por fim, quando as vagens secam, devem ser debulhadas, os feijões deixados para secar na sombra. 

Vagem boa pra refogar.

Vagem boa pra debulhar.

Feijões debulhados. E que vinagrete gostoso que viraram!


Das folhas, está registrado que são consumidas cozidas, como espinafre. Devem ser usadas bem jovens, fervidas antes do uso. O sabor lembra a vagem cozida. Picadinha como acompanhamanto de improviso, ou mesmo em tortas, são ótimas. Ricas em ferro, magnésio, e boa fonte de fósforo, zinco, cobre e tiamina. 

Como os outros feijões que comemos, esse também deve ser evitado cru. Deve ser SEMPRE deixado de molho por 12 horas, para que as toxinas saiam um pouco. Depois, a água deve ser descartada e ele cozido em nova água. Dos feijões demolhados também pode ser feito tofu. 

A planta é excelente fixadora de nitrogênio e vai adubar seu solo. Gosta de cercas e pode subir em árvores. Ela vai bem em climas quentes, com algumas variedades sendo tolerantes a frio. Contudo, em geral, recomenda-se plantar de Agosto a Dezembro, estendendo a colheita até Maio. Quando plantar atenção, é um grão que dá muito caruncho. Não deixe-os envelhecer no pé, ou perderá toda a safra. Armazene em potes com cinza peneirada para manter os grãos viáveis.

Quanto a solos, é pouquíssimo exigente: tolera amplas faixas de PH, tolera solos salinos (embora fique com folhas amareladas), tolera solos arenosos e solos com muita argila. Apenas não vai bem em solos encharcados.

Flores brancas e com perfume suave.
Vagens pequenas, em formação.
Vagens da variedade de grão
branco: são bicolores, gordurosas
e tem um cheiro forte.

GUIA DE IDENTIFICAÇÃO
Folhas verdes, cada um com três folíolos, de 3 a 6 centímetros de comprimento, em forma de triângulo oval. Flores iguais as do feijão-comum, em cores variadas, mas na maior parte roxas e brancas, por vezes lilases ou rosadas. Flores arranjadas em grupos, partindo de uma haste principal. Em algumas variedades, hastes compridas, em outra, hastes axilares de comprimento reduzido. Feijões ovais, muito duros, com uma listra branca característica no meio. Algumas variedades, as vagens são resinosas e com aroma forte de coentro. Plantas de 4 a 10 metros. 

LOCAL DE OCORRÊNCIA
Gosta de pleno sol, solo nunca muito úmido, não vai tolerar sombra. 

MODO DE PREPARAÇÃO
Folhas jovens cruas ou cozidas, vagens jovens comestíveis inteiras cozidas. Feijões, frescos ou secos, com sementes imaturas, comestíveis cozidas. Flores e brotos comestíveis crus ou cozidos. Feijão não seco mas maduro cozido. Feijões secos demolhados e cozidos com troca de água. Folhas e feijões jovens e macios são melhores, sempre fervidos. Raízes cozidas.

(originalmente publicado em 11/2014, atualizado em 26/09/2017)

18 comentários:

  1. Oi Guilherme.
    Gostei muito do artigo sobre o feijão Lab Lab (conhecia somente por orelha de padre). Plantei no meu quintal e venho colhendo as vagens a cada 4 dias. Você saberia dizer se tenho que eliminar as plantas após o ciclo da colheita ou ela produzirá por mais de um ciclo?
    Grato. Milton (peremilton@gmail.com)

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  2. Oi Guilherme.
    Gostei muito do artigo sobre o feijão Lab Lab (conhecia somente por orelha de padre). Plantei no meu quintal e venho colhendo as vagens a cada 4 dias. Você saberia dizer se tenho que eliminar as plantas após o ciclo da colheita ou ela produzirá por mais de um ciclo?
    Grato. Milton (peremilton@gmail.com)

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  3. Oi Milton, aqui em SP ela morre no inverno por causa do frio, mas em climas mas quentes imagino ser possível uma segunda safra sim, pensando que o florescimento é intermitente! abraços, GR

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  4. Oi Guilherme. Parabéns pela matéria, informativa, elucidativa e nostalgica! kkkk Realmente me lembrei de meus avós no interior de Goiás ao ler sua matéria. Já debulhei muito desses feijões para o meu avô, lembro-me que ele tinha de diversar cores, mas o roxo me chamava muito a atenção. Meu sonho é adquirir alguns alqueires e plantar sementes caboclas de milho, abóbora, feijão, batatas, carás, inhames, entre outras. Há muito procuro esses feijões aqui em Goiás, mas acredito estarem quase extintos, uma vez que ainda não os encontrei. Gostaria de saber se vc possui sementes e se as vende. Desde já agradeço asua atenção e mais uma vez parabéns!

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  5. Obrigado pelas informações. Sempre quis saber o nome verdadeiro dessa planta. Minha mãe cultivou a vida inteira. Agora planto em minha casa. Tenho a espécie de sementes pretas. Gostaria de obter as outras cores.

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    1. Que legal, conte pra gente, como vocês constumavam comer? é uma planta muito produtiva. Se eu não morasse em apartamento teria mais dele por aqui.

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  6. Ah! Minha mãe chamava a vagem de "Precata de João Belo", não sei porquê.

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    1. Que interessante, obrigado por compartilhar conosco! Essa planta tem realmente muitos nomes populares...

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  7. Adoro seus textos e como também sou muito curiosa, gosto de plantas diferentes. Cultivo a orelha de padre desde criança. Gosto de colher as vagens bem novinhas e tenras, deixo aferventar e salteio na manteiga.Amo!

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  8. Eu a cozinhei achei o cheiro um pouco forte tem alguma sugestão bde preparou

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    1. Se escaldar com água fervendo antes, o aroma forte sai :)

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  9. Olá Guilherme, parabéns pela matéria. Eu tenho boas lembranças da minha infância deste feijão, onde consumia feito salada ou cozido, sempre com as vagens jovens, pois são mais macias. Naquele tempo eu passava as férias escolares na casa dos meus tios em um sítio em Cabreúva-SP, muitos anos depois meus tios faleceram e o sítio vendido. Hoje eu vivo na Bahia e eu tenho um sítio próximo a Praia do Forte e eu gostaria novamente em ter este feijão para consumir, mas eu tenho encontrado grande dificuldade em encontrar sementes. Você sabe onde eu posso adquirir boas sementes para eu plantar?

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    1. Olá Claudio, temos bastante aqui em SP, se passar por aqui, avise. Abraços

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. a FOTO COM AS FLORES ROXAS SE PARECEM UM POUCO COM AS FLORES DO FEIJÃO MUCUNA, Q TBM ÉSÃO LINDAS, DO FEIJÃO VERMELHO ENTÃO! SÃO MARAVILHOSAS, EXISTEM UMAS FOTOS NO PINTEREST DAS PÉRGOLAS DE MUCUNA VERMELHA Q SÃO AS MAIS LINDAS Q JÁ VI, TIVE MUCUNA PRETA NO MEU QUINTAL DE UM GRÃO Q PEGUEI NUMA DECORAÇÃO NUMA PANELA DE SUPER MERCADO, NUMA FESTA JUNINA. UM SÓ PÉ DE MUCUNA DEU NA PRIMEIRA VEZ 22 K DE JEIJÕES , ERAM FIOS DE VAGENS DE ATÉ 1,20 CM DE COMPRIMENTO VARRIAM O CHÃO, A COISA MAIS LINDA E PR[OSPERA Q JÁ TIVE NA MINHA HORTA.

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  12. Boa tarde!!!Muito legal saber tudo isto,pois tenho muito Lab Lab aqui na minha casa!!!!

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  13. Guilherme, obrigada por compartilhar conhecimento. Gostaria de adquirir algumas sementes pra plantar. como faço? estou em SP, encontrei com vc na oficina de tapiocas da Neide na horta da FMUSP.grata

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  14. Olá Guilherme.

    Estou iniciando na vida de jardineira, principalmente em se tratando de plantar meu próprio alimento. Tenho uma varanda com sol pleno no verão, em São Paulo, e, pelo que percebi, esse feijão seria ideal para plantar nela.

    Gostaria de saber onde consigo encontrar sementes.

    Um abraço e parabéns pelo blog.
    Carolina

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