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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Alho silvestre: quem gosta de alho?



Quem gosta de alho? O alho chegou no Brasil pelas mãos do colonizador. No Brasil pré-colonização, imagino eu, o sabor de alho só era conhecido pelas nossas plantas nativas com sabor de alho, no caso do cipó-alho. E não sei afirmar se ela era de fato identificada como um tempero. Gostar de alho é um sabor aprendido, paladar adquirido. Imagine que você nunca viu alho antes, imagine a estranheza que é sentir aquele cheiro de alho cru, que impregna mão, dedos, bocas, facas e potes, pela primeira vez.

Nativo da europa, o alho é obviamente parente da cebolinha, da cebola e do alho poró, todos bem conhecidos por nós. No Brasil, é pouco conhecida a echalota, ou shallot em inglês. Uma cebola pequena, mais alongada, de sabor adocicado, muito parecido com a nossa cebola. Os japoneses tem também sua cebolinha, de uma espécie pouco conhecida no Brasil, chamado de nirá, ou simplesmente cebolinha japonesa, se folhas finíssimas e delicadas. Aqui ainda desconhecido é o cebolinhão, uma variedade silvestre de alho-poró que fica enorme, parecendo uma cebolinha gigante, grossa.

No Brasil, temos de ocorrência natural apenas um alho muito delicado, do gênero Nothoscordum. Antes chamado de Allium inodorum, foi reclassificado para outro grupo. Inodorum já dá uma idéia do sabor: suave. Enquanto todos os alhos, cebolas e porós que citamos no parágrafo anterior são fortemente aromáticos, nosso alho silvestre é delicado, suave. As folhas quase não tem sabor, mas mesmo assim, são gostosas.

Forma touceiras, e logo vem as flores brancas.
Cheiro de mel.

Depois das flores, os frutos do tipo capsula
liberam as sementes pretas.
Debaixo da terra, após algum tempo, forma-se uma bela touceira de alho, com bulbos grandes o suficiente para irem pra panela. Muito prolífico, cada bulbo da origem a um bulbinho menor, e a planta vai se espalhando. Pode nascer por sementes, que se formam agora, no verão, mas o crescimento é lento.

Outra coisa maravilhosa desse alho são as flores comestíveis. Elas são brancas e pequeninas, e possuem um cheiro (e gosto) absurdamente doce e forte de mel. Você ficará surpreso ao perceber que essa planta com cheiro tão forte de alho abaixo da terra pode dar flores tão cheirosas, distintamente lembrando algo doce.


Bulbo com muitos bulbinhos em volta.
Cada um dará origem a uma nova planta.

Enquanto algumas plantas são difíceis de identificar, tenho certeza que você vai rapidamente encontrar o alho silvestre. E pra nossa sorte, não tem nenhuma espécie parecida que possa ser confundida com ele.

Ele nasce em calçadas, jardins e caminhos, e está em época. Quando o tempo começa a secar, ele hiberna, e some dos jardins de março a agosto. Na primavera, volta com tudo!

Na cozinha, substitui bem o alho, com uma peculiaridade. Quem já trabalhou com cogumelo desidratado vai identificar o aroma de shiitake misturado com o do alho. Quando cozido, esse aroma de cogumelo fica mais suave. Fantástico para patês ou temperando saladas, purê ou até mesmo arroz.

Para usar, não tem erro: remova as folhas, a casca negra e as raízes. Lave bem e use como de costume.

Receita: Patê de Alho Silvestre

Igredientes:
200 gr de ricota fresca, macia
3 col de sopa de azeite
6 bulbos de alho silvestre lavados e pelados
10 folhas de alho silvestre, finamente picadas
1/ col de café de sal (se a ricota já for salgada, não precisa)

Preparo:
1. Lave os alhos, remova a pele e as raízes. Separe-os e pique as folhas
2. Coloque os ingredientes no processador.
3. Bata por 4 minutos ou mais, até virar um creme liso e sem grumos de queijo.
4. Consuma na hora ou guarde em geladeira.

GUIA DE IDENTIFICAÇÃO
Nothoscordum gracile. Planta herbácea, bulbosa, de até 30cm, de folhas verdes, lisas e macias, partindo todas da mesma base. Pode formar touceira. Flores pequenas, em paniculas, de cor branca, com 6 pétalas cada uma e forte aroma de mel. Cada pétala tem um risco verde característico. Sementes pretas. Bulbos bracos, com pele preta, cercados de bulbilhos, podendo estar bem profundos no solo.

LOCAL DE OCORRÊNCIA
Qualquer local. Tolera sombreamento e solos úmidos, apenas nunca muito secos. Em locais umidos e férteis é bem produtivo.

MODO DE PREPARO
Cru ou cozido, usado como tempero.



3 comentários:

  1. Fiquei muito curiosa depois de ler este post. Procuro o dito cujo desde então. Hoje desconfuei e perguntei para a minha mãe sobre aquela "tiririca super desenvolvida e com flor delicada". Ela confirmou que era o alho silvestre, mas não sabia que é de comer. Nasce desde sempre em meio à brita do quintal dela. Agora vai para a nossa panela! Obrigada pelas valiosas informações!!

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  2. Meu quintal está cheio, nasceram naturalmente! Adorei, amo as plantinhas, são uma terapia! Replantei um na minha mini-hortinha. Amei esse blog.

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  3. Achei hoje no meu quintal!!! Lembrei que você mostrou no dia da oficina de PANCs.

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