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terça-feira, 17 de maio de 2016

Banana tem sementes?

Notou que as postagens aqui da Matos de Comer andaram rareando, né? Esses últimos tempos, com tanto acontecimentos políticos importantes, não tive muita energia para escrever. Em compensação, me fiz mais presente no Instagram, onde posto coisas que encontro por aí, que como ou cozinho, sempre envolvendo espécies pouco comuns, ingredientes pouco utilizados, variedades pouco convencionais e receitas utilizando toda essa biodiversidade comestível que discutimos aqui. Segue a gente lá: https://www.instagram.com/matosdecomer/ ou usando #matosdecomer. :)

Mas voltando à postagem: banana tem semente?

Cresci acreditando que aqueles pontinhos pretos dentro da banana eram sementes, mas nunca dei muita atenção. Afinal, quando a gente compra uma fruta, quer saber da polpa, e não das sementes. Já notaram que os mamões tem cada vez menos sementes? Que as laranjas-pêra, a de suco, também não tem mais sementes? Nem o caqui mole. Não acho que seja coincidência essas sementes irem desaparecendo - devem ser variedades selecionadas para tem mais polpa e menos caroço. Bom, aproveita-se mais da fruta. 

Banana e suas sementes.
Algumas alimentos já perderam suas sementes há muito tempo, especialmente porque são cultivares e podem ser multiplicadas por galhos, ramos, rizomas. Alguém  já viu sementes de gengibre? E de mandioca? E de batata? Não viu e provavelmente não vai ver, porque são plantas que raramente produzem sementes.

A banana que encontramos hoje no supermercado tem mais tecnologia do que um computador ou um celular, e o mais inacreditável, foi desenvolvida por pessoas que nada entendiam de genes, DNA ou engenharia genética, há alguns milhares de anos, no sul da Ásia. Existem cerca de 40 espécies de plantas aparentadas com a banana, todas com frutos pequenos, sem-graça, pobres em polpa e cheios de caroços duros. Algumas dessas espécies se hibridizaram, especialmente Musa balbsiana e Musa acuminata, e em um processo extremamente complexo ao longo dos séculos, foram levadas para vários lugares aonde ainda tiveram influências de outras espécies, como Musa schizocarpa e Musa textilis. Não bastasse essa mistura genética entre as espécies, surgiram ainda variedades a partir de mutações, então o número de variedades aumenta mais ainda.

Frutos da Musa balbsiana silvestre, avó das nossas bananas
sem semente. Foto daqui. 
Yes, nós temos bananas, mas todas elas são da Ásia. Mesmo as bananas que parecem "mais nossas", como a ouro ou a da terra, que como o nome indica, deveria ser pátria, são trazidas de fora. Não há bananas nativas, sinto informar. Inclusive a da terra, aquela grandona de fritar, chamada em suas variedades de pacovámachomaranhão ou de chifre. Ela foi trazida para cá pouco depois da colonização e passou a ser cultivada até mesmo pelos índios, dando essa impressão, para nós, de que é nativa, assim como a manga, o café, a laranja, o inhame e a jaca, trazidas da Ásia. Imagina o impacto ambiental das grandes navegações?

As bananas com sementes foram também trazidas para o Brasil, assim como as sem sementes. Todas. As com sementes, no caso, são mais próximas da banana selvagem, afinal, como ela sobreviveria na natureza sem sementes, sem deixar filhos? Essas variedades (no caso, espécies) com sementes em são plantas com frutos pequenos, que se descascam "sozinhos" no pé - a casca se solta e expõe o fruto, convidando os pássaros para a degustação. Embora possamos encontrar alguns exemplares de bananas com sementes no Brasil, a maioria dessas bananas ou pertencem à espécie da banana rosa (Musa velutina) ou a banana de jardim (Musa ornata). Em alguns jardins botânicos, como o de Nova Odessa (SP), ou ainda o Sítio Frutas Raras é possível encontrar espécies como a Musa balbsiana, a Musa thompsonii, a Musa acuminata e algumas outras.

Fruto da Musa acuminata, uma das avós da nossa banana
moderna. Foto tirada no sítio Frutas Raras.
Dá pra ver as sementes?
Mas afinal, quem quer uma bananeira que produz bananas pequenas, cheias de sementes e com pouca polpa? As sementes são comestíveis, tenras e se partem entre os dentes, e as bananas são doces e super saborosas, ao menos as da banana-de-jardim. Podem ir inteiras para receitas, como pães, bolos e biscoitos, com, além sabor de banana, sementes crocantes e super nutritivas que podem ser mastigadas sem problemas. Aliás, essas sementes torradas são um petisco incrível. E podem virar farinha, granola, farofa, crocante, e mais um monte de coisas.

Flor da Musa ornata. Rosada e apontando pra cima.

Frutos da Musa ornata x banana nanicão. Pequenas!

Sementes de banana, para comer ou plantar.
Essas, das fotos que trago aqui, são os frutos da Musa ornata é uma bananeira com aspecto comum, mas possui o cacho apontando para cima com o coração ou umbigo cor de rosa, sendo bem comum na serra do Mar paulista e no Vale do Ribeira, vegetando quase que espontaneamente. Aliás, é uma planta invasiva, invadindo nossas matas e reservas, o que nos faz pensar que é nativa, mas não é - dispersa principalmente por pássaros, que comem os frutos e vão espalhando as sementes. As minhas eu colhi no parque da Aclimação, em SP, onde há um maciço enorme delas, meio escondido.

Há a espécie Musa velutina, de porte menor, flores rosas e frutos na cor pink, também totalmente comestível e muito saborosa.

Musa velutina. O charme dessa é que ela se "descasca"
quando madura. Tudo que um pássaro pode querer.

Para quem quiser mais saber sobre variedades de banana e o histórico de sua evolução, recomendo o artigo (em inglês): https://agritrop-prod.cirad.fr/550536/1/document_550536.pdf
Ainda, há o portal de um grupo de pesquisa internacional sobre banana, muito interessante, que mostra inclusive fotos de diferenças das principais variedades e espécies, clicando aqui. É possível ainda saber todas as variedades do Brasil, clicando em "filtros" e escolhendo o Brasil. Botânicos vão divertir-se bastante. 

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