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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Mutamba perfumada

Frutos da mutamba, ou mutambo
Quando pensamos em frutas automaticamente pensamos em coisas suculentas, doces, úmidas e perfumadas. De fato, a maior pate do que temos como frutas assim o são. Já a mutamba, ou mutambo, possui frutos duros e secos, talvez por isso lhe reservem menos atenção. Apesar da aparência cascuda e da rigidez, não se iluda, porque são saborosos e muito perfumados. 

A mutamba é uma velha conhecida minha, porque lá no sítio há um belo exemplar plantado no terreno do vizinho em divisa com o nosso, e a árvore cresceu a olhos vistos. Os frutos despencam secos no chão e não tem grandes indícios de que sejam comestíveis. Os pássaros já sabiam: periquitos, maritacas e papagaios sempre rondam a árvore, e talvez tenham sucesso no consumo dos frutos devido a seu bico duro.

Foi curioso para mim descobrir que os frutos da mutamba eram comestíveis. Até então eram daquelas capsulas ou vagens de sementes secas e duras que despencam e são gostosas de pisar, crocantes embaixo da sola do sapato. Esse começo de outubro estive em um curso em Botucatu na companhia do casal querido Maia e André, sobre etnobotânica e plantas alimentícias não convencionais. Na frente da sala onde ocorreu o curso, um pé de mutamba carregado. E eles que me estimularam a provar.

Frutos secos, antes de despencarem. No ponto de colher.
Foto daqui.

Os frutos tem um formato característico, redondos, ásperos, negros depois de secos e com cinco fendas que expõem as sementes. Eles despencam e forram o chão no entorno da árvore. A planta, Guazuma ulmifolia, é pioneira de médio porte, crescimento rápido, melífera e com mil e uma utilidades. Nativa e ideal para sistemas agroflorestais, porque produz cedo e proporciona excelente sombra. Aliás, ela é parente próxima do cacau e do cupuaçu, e parente distante do hibisco, da paineira e do quiabo.

Eu sinceramente não esperava nada daquelas bolotas secas e escuras. Mas nunca tinha levado ao nariz! Que surpresa, daquele fruto seco sair um sabor tão diferente, que lembra morango, banana e uma porção de frutas misturadas. Segundo um trabalho da Embrapa, há relatos de que tem sabor que lembra figos secos - apenas para você saber que a percepção de cheiro é subjetiva. O cheiro é forte, lembra algo cremoso, da família dos cheiros da banana, do jatobá e da jaca, para quem tem narizes sem frescuras. Do pouco que colhi, coloquei num saco e deixei no carro. No caminho para casa aquele cheiro foi penetrando, empesteando, dominando o carro. Quando abri o porta-malas quase caí pra trás, uma porção de frutinhas dominou um porta-malas enorme! Aquele cheiro doce enjoativo de bala de tutti-fruti.

Mutamba, perfumadíssima

Já comecei a ter idéias. Como uma coisa perfumada dessas ainda não virou comida? Procurei por registros de uso e a maior parte é medicinal. Aliás, a mutamba é uma árvore super medicinal, de onde se usam flores, caules, cascas e frutos, ou seja, tudo. É usada industrializada junto com juá para fortalecer cabelo, estimular o crescimento e a saúde dos fios. Para fins comestíveis é subaproveitada, mas há uma marca de sorvetes que usa o fruto, e você pode consultar clicando aqui. Mas ainda há um mercado potencial para sucos, licores, cachaças aromatizadas, farinhas, pães e bolos.

A minha vizinha, Amerita, a Ita, contou que na região dela, na Bahia, lembra-se dos tempos de criança, quando dos caules e cascas da árvore, cozidos, formavam uma massa pastosa usada na clarificação da garapa da cana. Em muitas regiões do nordeste e sudeste esse uso persiste até hoje. Segundo ela, após a cocção da garapa com a goma da mutamba, obtém-se um caldo claro e transparente como água, provavelmente através do processo de decantação. Talvez sirva para clarear outras bebidas, como vinho, hidromel, cervejas ou até mesmo água barrenta. Alguém já tentou esses usos?

Do fruto se extrai uma mucilagem escura, e embora sejam duros, na boca amaciam e ficam muito saborosos. O Helton, do Frutas Raras, recomenda processar os frutos e usar sua farinha aromática. Há registro em uma circular técnica da Embrapa onde é citado o uso pelos índios da América Central de uma bebida à base dos frutos triturados e água. Os frutos, ainda, podem ser armazenados enquanto secos no preparo de chás aromáticos.

Para armazenar os frutos, prefira-os secos, colhidos diretamente do pé, e seque-os ao sol por algumas horas, armazando-os em frascos hermeticamente fechados, para manter o aroma. Ou congele-os.

Como consegui trazer apenas um punhado, achei insuficiente para fazer um doce ou uma farinha, mas fiz um chá muito perfumado e um licor fantástico.

Licor de mutamba. Cor clara, perfume intenso. Uma iguaria.

Para o licor, a receita básica é 500 ml de álcool de cereais comestível 100% para 1 xícara de frutos, compondo o que se chama "macerado". Deve ficar em infusão por pelo menos 15 dias, em frasco tampado. Após a maceração, deve-se fazer uma calda de açúcar de 1 litro de água para 1 quilo de açúcar, fervendo por 20 minutos. Adicione o líquido resultante do macerado alcoólico, sem os frutos, à calda, ambos em temperatura ambiente. O licor deve estabilizar por 1 mês em local escuro.

Deixe os frutos submersos no álcool para extrair os aromas.
Após o preparo desse licor, posso afirmar que é uma iguaria. É uma pena que não seja produzido em larga escala, porque teria aceitação imediata no mercado nacional e internacional, barato, fácil de preparar, delicioso e sui generis.

Está na lista de pendências: moer os frutos, peneirar e usar a farinha para fazer bolo ou biscoitos. Alguém já tentou, tem alguma sugestão de uso?

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