Páginas

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Coffe Senna, Habu Tea, Fedegoso. Café PANC.

Chá de Habu
A Cassia occidentalis, conhecida como fedegoso, é utilizada em diversos locais do globo como uma bebida tônica semelhante ao café, elaborada através da torrefação das sementes e sua posterior fervura. O sabor é muito agradável e está entre o mate, o café e tem um quê de caramelo - depende, é claro, do quão torrada está a sua semente. São atribuídas a elas propriedades desintoxicantes, tônicas e digestivas.

Há não muito tempo ouvi falar de um chá que prometia milagres para a saúde, por ser depurativo, desintoxicante, antioxidante e tratar de má digestão a úlceras. Se faz milagres, provavelmente não, mas é bem gostoso, e até amigos que não bebem chá elogiaram.

Encontrei vez as sementes à venda certa em uma feira de orgânicos, mas a vendedora não sabia o nome da planta, apenas soube explicar "é um chá que os japoneses tomam, torram a semente e bebem, um tipo de café japonês". Café japonês. Em meio a muitos textos sobre o uso das sementes de arroz e cevada usadas em infusões no japão, foi numa mercearia oriental que encontrei as tais sementes. O rótulo era todo em japonês, mas quando vi as sementes tive certeza que se tratavam da mesma coisa. Habu. Foi um passo para descobrir que tratava-se de uma variedade do nosso fedegoso, a Cassia occidentalis, uma planta daninha em diversos países do globo.

Sementes de Habu, ainda não tostadas
O nome fedegoso não é dado por acaso, porque a planta solta um cheiro amargo quando tocada. O que se consome dela, aliás, são as sementes. A recomendação para consumo do chá é simples: as sementes precisam ser torradas e então, feitas em infusão. Elas possuem um formato e cor característicos, parecem grãos de arroz geométricos com um lindo verniz marrom. Não dá para confundir, especialmente em uma mercearia oriental.

E o tal chá de habu (pronuncia-se ra-bú) é conhecido sob muitos nomes ao longo do mundo. No famoso livro sobre plantas úteis do Brasil, do Pio Corrêa, consta que a espécie era usada no Ceará na década de 40 como substituto do café, hábito que persiste em algumas localidades. O fedegoso é um arbusto espontâneo, muito rústico e de ciclo curto, com uma linda floração amarela.

Plantei as sementes e tive uma agradável surpresa.
Encontrei um artigo chamado Coffee senna: an important species for different ethnic groups, e através dele descobri que o fedegoso é usado em diferentes localidades do mundo na forma de bebida a partir dos grãos torrados, como em países da África, da ásia e aqui na América do Sul. No livro Food Plants of China também há indicação de uso tradicional de bebida feita com as sementes torradas. Na Coreia, denomina-se Kyulmyungja cha. 

Relatos do consumo são importantes, porque há uma série de trabalhos apontando que o grão cru é tóxico a diversos animais, gerando danos ao fígado, coração e nervos. Contudo, acredito eu, com base nos relatos de consumo dessa planta enquanto infusão preparada com grãos torradas, que seu consumo é seguro. Tenho feito consumo regular dela, inclusive. É uma excelente digestiva e diurética, e encontrei na literatura sugestões de que seja "tônica". Na medicina ayurvédica, assim como na tradicional medicina chinesa, atribuem-se propriedades de "esfriar" o excesso de calor do fígado, favorecer a saída de secreções e atuar como um tônico da digestão.

As sementes devem ser torradas até pipocarem.

O chá deve ser fervido até ficar avermelhado e aromático.
Aparentemente, o calor destrói e volatiliza as substâncias tóxicas - no rótulo do chá comprado nas mercearias, há a indicação explícita de que ele deve ser consumido torrado. Para torrar é simples, basta colocar em uma frigideira e levar ao fogo baixo, misturando continuamente, até as sementes pipocarem e liberarem um aroma penetrante. Estarão prontas quando pararem de pipocar, mas não devem ter um cheiro de queimado. Devem ser torradas, não queimadas. O aroma, aliás, lembra cheiro de alho frito na manteiga, e desaparece completamente no chá, que lembra um mate com um quê de caramelo. Eu fiquei surpreso, aliás, com o sabor divino que a torra proporciona, além de remover as substâncias indesejadas, promove o sabor.

Para fazer a bebida, ferva por 15 minutos 1 colher de café de sementes tostadas- sim, é bem pouco - para 250 ml de água. Existem variações nessa proporção, mas essa quantidade é suficiente para um chá avermelhado e muito aromático. Eu gosto levemente adoçado, o que reforça o sabor de caramelo da bebida. Gelado também fica gostoso. Estou viciado nesse chá ultimamente, uma boa opção refrescante para os dias de calor.

Aproveite e plante algumas sementes. É uma planta de crescimento fácil, muito vistosa e claro, pode ser considerada uma planta alimentícia não convencional..

Habu, ou fedegoso, nascendo no sítio

4 comentários:

  1. Oi! Me interesso pelas PANCs e, desde pequena, a família que era bem pobre passava alguns conhecimentos dos "matos de comer". Até hoje amo salada de mastruço que minha mãe fazia (e só achei em UM restaurante natural, em Pelotas). Estou acompanhando teu blog, parabéns!
    Que linda a planta! Faz muitíssimos anos fiz chá da habu, mas não me lembrava da parte de tostar. Um café diferente que provei foi o café de milho (farinha de milho tostada), olha, ficou muito bom!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Cris, é um chá muito bom, né? Pena que só fui descobrí-lo recentemente. Conheci o café de milho a não muito tempo. Há o café de arroz tostado, também. O que interessa em todos é o sabor do torrado, do maltado, né? beijo

      Excluir
  2. Lembrando que o picão comum(aquele que enche as roupas de espículas) é um excelente repelente! maceram-se as folhas e extrai o sumo das folhas.Em caso de acampamentos ou viagens "desprevenidas" à roça é uma verdadeira mão na roda!

    ResponderExcluir
  3. Nossa que legal. Encontrei essa publicação por acaso. Navegando sobre coisas que consumi qdo era criança. Adorei as informações

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...