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sexta-feira, 27 de junho de 2014

as Bertalhas, muitas.


 Nem serralha, nem metralha. Essa verdura é mais conhecida no Rio de Janeiro, pelas pessoas que conversei nos últimos tempos. A maior parte dos cariocas do interior identificam essa planta com facilidade, assim como os paulistas tem sua taioba e os mineiros, sua ora-pro-nóbis.

Basella alba
O mais interessante é: existem muitas coisas sob o nome de bertalha. O que elas tem em comum? São plantas trepadeiras, de folhas suculentas, comestíveis e pertencem ao gênero das Basellaceas.

Mas vamos por partes. Existem dois gêneros principais de bertalha. A Anredera e a Basella. Saiba desde já: todas as partes são comestíveis, porque o gênero Basellaceae quase não produz substâncias tóxicas para humanos.

Anredera cordifolia
O gênero Anredera é nativo da América do Sul, e inclui a Anredera cordifolia, principalmente. Suas principais características são as folhas em forma de coração, as flores brancas, a florada no começo do outono. Ainda, produz bulbos junto ao caule, especialmente após a floração.

O gênero Basella é nativo da Ásia Tropical, e é representado aqui pelas espécies de Basella alba e Basella rubra. As folhas da B. alba são verdes, as da B. rubra, avermelhadas. Ambas folhas são são em forma de coração, e sim,  São trepadeiras menos vigorosos, não possuem bulbilhos junto aos caules e dão flores ao longo do outono-inverno, com geração de frutos negros e insípidos.

Todas as plantas gostam de calor e solos férteis. Vão também bem a pleno sol. No caso, a Basella vai bem também em meia sombra. As Anrederas toleram bem a seca depois de estabelecidas. Na dúvida, regue abundantemente nos primeiros 6 meses.

Basella rubra
Então, vamos dar nomes, ao menos por enquanto, para diferenciar as plantas.

A Anredera cordifolia possui muitas denominações, que encontrei numa rápida olhada na internet. Os nomes mais comuns são: bertalha, erva-gorda, caruru do reino, caruru de seda, cipó manteiga, ora-pro-nobis sem espinhos.

Já as Basella, possuem praticamente os mesmos nomes: bertalha branca ou vermelha, espinafre indiano, espinafre trepadeiro, espinafre malabar.

Ajudou? Complicou, né?

Vamos, então, pra identificação visual das plantas.

Clique na imagem para ampliar

Como diferenças marcantes:
O tamanho da planta: Anredera é maior que Basella.
Frutos: Anredera não tem frutos, Basella tem.
Flores: Anredera flore em branco, Basella, cor de rosa.
Bulbilhos: Anredera tem bulbilhos, Basella não.

Basella rubra, no vaso. Flores rosadas, folhas arroxeadas.

Caruru do reino, Anredera cordifolia.
Folhas verdes, flores brancas.


Receitas com Bertalha

Suas folhas podem ser usadas cruas ou refogadas - sempre com uma gotinha de limão, ou podem ficar mucilaginosas. Os bulbilhos, que parecem pequenos gengibres em formato, podem ser picados e cozidos no arroz ou como salada.

Também podem ser usadas em massas de bolo, pão e macarrão, para aumentar o ínidice de nutrientes e para dar cor. Em receitas veganas de pão, um copinho de café de folhas picadas substitui um ovo.

Panqueca de Bertalha recheada de Bulbilhos ao Parmesão
Bulbilhos: macios e saborosos, com casca e tudo

Essa receita é feita com a bertalha Anredera cordifolia. Se quiser usar outras bertalhas, ou não tiver bulbilhos, substitua-os por abobrinha em cubos.

Massa


1 copo de leite
1 ovo
1 xícara de farinha
1 xícara de folhas picadas
1 col sopa óleo
1/2 col café de sal

Bata todos os ingredientes no liquidificador. Aqueça uma frigideira anti-aderente, adicione uma gota de óleo, espalhe, e frite as panquecas, uma a uma, virando assim que dourar. Reserve.



Recheio
sal a gosto
1 copo e meio de bulbilhos lavados e escorridos, picados em fatias de 1cm
1 dente de alho picadinho
2 col sopa cebolinha picada
1 col sopa de limão
1 col sobremesa de manteiga
orégano a gosto
3 col sopa de parmesão
1 col sopa requeijão
3 castanhas do pará finamente picadas (opcional)



Aqueça a manteiga, adicione os bulbinhos e o alho. Refogue vigorosamente até amaciar, por volta de 5-10min, em fogo baixo. Adicione gotas de limão conforme for saindo baba. Se soltar muito líquido, escorra. Assim que amaciar, acrescente o requeijão, o orégano, a cebolinha, o queijo ralado e a castanha do pará. Acerte o sal.

Montagem:

Cada panqueca deve ser preenchida com 2 col de sopa da mistura e enrolada. Jogue por cima lasquinhas de queijo, azeite e salsa para decorar. Acompanha bem uma salada de tomates bem picadinhos.




Informações Gastronômicas

A bertalha pode substituir o espinafre.

Combina bem com queijos, arroz, massas em geral, batatas, todas as carnes, saladas, lasanha.

A Anredera foi descrita, assim como suas propriedades, na revisão feita por Kinupp, que pode ser encontrada aqui


Los Guajes Mexicanos Parte 2: A Leucena fora da cozinha

Sementes maduras. Não se come. Uso interessante em artesanato.
Da Leucena, já vimos na postagem Parte 1, que ela é uma opção interessante na cozinha. Mas e as folhas, não se come? Devido ao alto teor de mimosina, uma substância tóxica, seu consumo é perigoso. As sementes possuem valores baixissimos de mimosina, e seu consumo esporádico é seguro.

A minha leucena tem sido uma boa fonte de material para composteira. Como as folhas são pequenininhas, elas somem muito rápido. Também as uso para cobrir o solo, corto as ramas, pico bem e uso para cobrir a horta. Como a madeira é pouco densa e as folhas pequenas, é uma cobertura orgânica de degradação rápida.

Em consórcio com milho. Fonte aqui
A leucena possui também diversos usos interessantes no meio agrícola. O primeiro deles, por ser uma leguminosa de grande porte, é uma boa fixadora de nitrogênio. Isso, porque em suas raízes há colônias de bactérias fixadores de nitrogênio. Ou seja, a leucena é uma opção de adubo verde. Segundo estudos, pro produzir 598kg de nitrogênio por ano, uma valor record entre as leguminosas estudadas para adubação verde. (Fonte aqui).

Como é uma planta com folhas pequenas e copa esparsa, é uma boa planta companheira para promover sombreamento parcial para culturas temporárias. Contudo, deve haver manejo e remoção das vagens, para que ela não se espalhe.

Podada, para rebrotar e se manter baixa. Fonte aqui
A leucena também é uma boa planta para solos com problema de erosão. Inicialmente, produz uma raíz muito profunda, seguida por uma serie de raízes superficiais, gerando uma trama que "segura o solo". Esse uso tem sido relatado na Ásia. (Fonte aqui)

Para animais, é uma alternativa de bom valor protéico (21 a 23 nas folhas e 8 a 10% nas hastes). Contudo, não deve corresponder a mais que 50% da alimentação diária, e deve ser usada por curtos períodos, por conter mimosina, que em grandes quantidades, é tóxica.                                    
Podemos ver aqui que a Leucena, dentre as leguminosas mais comuns para geração de biomassa para cobertura do solo, é a que mais produz massa. Para tanto, deve ser podada de duas a quatro vezes por ano, antes que seus galhos fiquem mais grossos que um dedo. Deve ser mantida numa altura baixa, e podada a no máximo três palmos do chão, para que, ao invés de criar um galho grosso, crie vários menores, facilitando a poda e a rebrotagem.

A leucena só possui uma restrição: ela precisa de cálcio no solo. Portanto, calagem é uma boa opção para que as árvores tenham boa produtividade.

Mais informações legais: Seu cultivo e características gerais e uso para alimentar animais.

Onde encontrar a Leucena: Ela é altamente infestante em regiões degradadas, em beiras de estradas, margens de rios, pastos, terrenos baldios. Em São Paulo (SP) pode ser facilmente vista na arborização pública.

Até a próxima!

Los Guajes Mexicanos: É feijão e é tempero

 Há muitos anos, minha mãe plantou uma árvore em casa. O vendedor disse que era nativa, se chamava angico-anão. As folhas eram bem miudinhas, seria uma bela árvore, imaginávamos. Em menos de dois anos a árvore estava com mais de 5m de altura.

Leucaena leucocephala
Tudo errado. O angico, que descobrimos ser na verdade, uma Leucena, nem nativo era. Foi trazida da américa central, principalmente para alimentar gado. Isso porque, depois de uma poda radical, rebrota imediatamente, sendo garantia de comida fresca mesmo em tempos de seca.

E vieram as flores. Pequenas bolinhas brancas, redondinhas. Daí o nome científico, Leucaena leucocephala, onde leucocéfala quer dizer: cabeça branca.

Leucena, e sua cabecinha branca em flor

O problema foi, após alguns meses, as flores viraram vagens, que deram sementes, que cairam no solo. E ali ficaram esperando alguma chuva. Na primeira oportunidade, brotaram dezenas de leucenas. Que bonitinhas, pensamos. E elas cresceram. Quando estavam com uns 30 cm, decidimos por arrancá-las.

Quem conseguiu? A Leucena tem uma raiz pivotante, grossa e fibrosa, muito resistente, que fura o chão bem fundo a procura de água. Puxávamos, puxávamos, e nada. Resolvemos cortar as mudinhas pela base. Poucos dias depois, pareciam muito felizes em rebrotar, vigorosas, zombando de nós. E assim é até hoje, uma batalha entre nós e a tão prolífica Leucena.

As folhas da Leucena são venenosas, mas as sementes ainda verdes, são comestíveis. E são elas, chamadas no México de guajes, ou huajes, que um ingrediente muito curioso. As sementes são brilhantes e macias, cremosas. Na primeira mordida, dá para identificar o sabor potente: uma mistura de alho e cogumelo, daqueles desidratados, com um toque de defumado.

A colheita se dá o ano todo, quando as vagens estão começando a ficar marrons ou avermelhadas, e as sementes ainda estão verdes, porém graúdas e suculentas. Sementes marrons são amargas e não devem ser consumidas. A vagem também é descartada, além de fibrosa, é tóxica.
(Vagens em diferentes estados de maturação, e sementes colhidas)

O bom de consumir guajes é, além de uma fonte de grãos e condimento excepcional, estamos evitando que mais sementes nasçam por aí. A leucena é uma planta muito agressiva, compete com outras plantas, estoura muros, rompe frestas... O consumo é uma forma de controle, para que a Leucena não se espalhe mais!

Receitas com Leucena

Pesquisando, descobri duas formas de uso principais para as sementes. A primeira, como tempero, prensando as sementes e adicionando durante o cozimento. A segunda, na forma de patê, assim como se fazer com o guacamole, uma salada pastosa de abacate. Seria a salsa de guajes!

A salsa de guajes é feita com as sementes piladas, juntamente com alho, limão, coentro e pimentas verdes. Portanto, ácido, picante, salgado e com um sabor de alhos bem potente. Se você não gosta de alho nem sabores fortes, essa talvez não seja uma receita para você. Ah, sim, fiz a receita daqui. 

Eu fiz e achei o mole de guajes muito forte. Resolvi fazer um prato de inspiração mexicana. Mas, repito, é criação minha, para paladares brasileiros.

Guacamole com guajes

2 colheres de sopa de sementes verdes frescas
1 abacate médio, maduro
2 tomates vermelhos, do tipo comprido, italiano
1/2 pimentão vermelho ou amarelo
1 tomate verde
1 cebola roxa pequena
3 colheres de sopa de salsa finamente picada
1 colher de sopa de coentro picado
2 pitadas se cominho em pó
suco de 1 limão
sal a gosto
2 colheres de sopa de azeite
pimenta a gosto (pimenta verde fresca fica especialmente bom)

Pique a cebola, coloque dentro de 1 copo de água fervente e deixe esfriar. Enquanto isso, pique finamente os tomates, o pimentão, e o abacate.
Pegue as sementes de guaje, o coentro e amasse num pilão, ou use o cabo de uma colher de pau pra esmagar as sementes.
Misture os tomates, o pimentão, o abacate, a cebola (já escorrida), a salsinha, o cominho, os guajes com o coentro e, logo antes de servir, tempere com o sumo do limão, mais azeite, sal e a pimenta.
Amasse delicadamente com uma colher e está pronto.

Sirva com torradas de milho, nachos ou até mesmo, Doritos.


Informações Gastronômicas

Consumo crua ou cozida. 

Sabor picante, forte de alho e cogumelos, sabor persiste na boca.

Se refogada, fica com sabor meio amargo.

Combina com queijos fortes, carnes de caça, arroz, tomates, cebolas, legumes crus, abacate, massas integrais, alimentos defumados.

Até a próxima!


Taiobas, a confusão: Guia Definitivo de Identificação

A primeira vez que ouvi falar de taioba foi numa história meio trágica, meio cômica. A irmã de uma vizinha estava com a casa em obras, levantando um muro de arrimo no fundo da casa. Trabalhavam lá três pedreiros. O problema: a casa era no meio do nada, e no primeiro dia dos trabalhadores, não havia muita coisa para o almoço. E, obviamente, nenhum bar ou padaria por perto. O almoço saiu de improviso, talvez um frango caipira, feijão, farinha e uma verdura. Época de seca, não tinha nada na horta. Correu pra matinha lá perto, lembrava que a mãe colhia umas folhas verdonas que nasciam sozinhas perto do "corguinho". Era a taioba. Picou como se fosse couve, refogou e serviu.

Resultado: Todos cuspindo e babando, a língua inchando, uma pinicância absurda "tem veneno nessa bóia aqui, dona?".

A dona, coitada, lembrava da verdura de infância, que sua mãe fazia picadinha. Mas poxa, era tão parecida! O problema é: parecida não é idêntica. A taioba é uma plantinha traiçoeira, porque confunde-se com outras espécies do mesmo gênero, não comestíveis.

Nunca ouviu falar? A taioba é uma hortaliça que está voltando a ser consumida e cultivada nas hortas. Bem lentamente, verdade. Mas pergunte por aí - certamente alguém já ouviu falar ou já comeu, ou conhece alguém que já comeu. É consumida igual a couve, refogada, ou em outras inúmeras receitas, como molhos verdes, pastéis, bolinhos e suflês.

É uma planta que gosta de ambientes sombreados e úmidos, como terrenos abandonados, próximo a muros ou ainda perto de córregos. Por isso, observe se a área não é contaminada, porque um ambiente contaminado resultará em folhas contaminadas. Também evite colher as folhas de locais com muito sol - elas se defendem do sol fabricando "defesas" que deixam a folha com um teor maior de substâncias tóxicas. Prefira sempre as plantas que crescem com folhas grandes em ambientes sombreados.

Para fazer mudas, você pode remover os brotos laterais que as plantas mais velhas soltam, replantando-os. Inicialmente as folhas são pequenas, mas em solos férteis e bem irrigados elas podem ficar enormes. E, se você mora em locais cujo inverno é muito seco, pode ser que elas hibernem e fiquem sem as folhas até a volta das próximas chuvas.

Fato: é fácil identificar a taioba?

Existem diversas plantas, da família das Araceas, muito parecidas com a Taioba. Contudo, poucas possuem as folhas comestíveis após cozimento. Das comestíveis, estão inclusas no gênero Xanthosoma: Xanthosoma sagittifolium (conhecida como Taioba) e Xanthosoma mafaffa (chamada de Mangarito).

Porém, há muitas espécies que as folhas, ricas em ácido oxalico e outras substâncias, são tóxicas e causam irritação na boca. Essas espécies possuem tantos cristais de oxalato que, mesmo cozidas, seu consumo não é seguro. Elas estão principalmente no gênero Xanthosoma, Alocasia e Colocasia.

Vamos ao teste: quais das plantas abaixo é a Taioba?

1

2

3

4

5

Antes de eu dar a resposta, fiz um pequeno e simples infográfico explicando como identificar. 

(Clique na imagem para ampliar)

Tente voltar e descobrir qual é. 

Já dou a resposta. A taioba verdadeira é a Imagem 4. Das demais: Imagem 1 - taioba roxa, da qual se come o rizoma. Alguns autores citam o consumo das folhas, mas é preciso cozinhar demais e muita gente passa mal com elas. Imagem dois corresponde ao inhame, do qual se comem o rizoma, sempre cozido e nunca cru. A terceira foto é o singônio, uma planta que, apesar de ter todas as características de uma folha de taioba, é uma planta trepadeira e muito venenosa. A última foto é a Xanthosoma albomarginata, uma parente da taioba, de folhas com manchar brancas, unicamente ornamental.

(Taioba Verdadeira. Clique para ampliar)
(Falsa Taioba/ Taro ou Inhame)
Há ainda espécies do gênero Alocasia, que são parecidas com a Taioba. Mas a diferença é fácil. As folhas da Alocasia apontam para cima. As da Taioba, para baixo. Mais informações sobre as raízes comestíveis do gênero Alocasia, ou inhame gigante, aqui, em inglês.

Essa é a Alocasia macrorrhiza. Parece com a taioba,
mas as folhas apontam para cima. Come-se o rizoma,
idêntico ao inhame, muito bem cozido.
Acho que agora dá pra consumir com mais segurança, certo? Se não tiver certeza, não consuma. Nem sirva pras visitas. Melhor ficar na dúvida, certo?

Taioba, modo de preparo:
  1. Ferva água, adicione as folhas picadas ou inteiras.
  2. Aguarde uns segundos e remova as folhas.
  3. Descarte a água.
  4. A Taioba está pronta para ser consumida.
Caso vá consumir os talos, cozinhe por 3 minutos e escorra. O calor inativa substâncias tóxicas, e os cristais de oxalato ficam na água.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Tupinambos Viajantes: Primeira e Segunda Safra

Quando descobri que havia uma espécie de girassol capaz de produzir bulbos, não acreditei. Mas sim, existe, e eles são comestíveis - e deliciosos. Em Portugal, Girassol-batateiro. Em inglês, Jerusalem artichoke, ou ainda Sunchoke. Em francês, Tupinambur.


(Plantação de tupinambos em Portugal)

O Helianthus tuberosus é um girassol arbustivo, de porte grande, com flores amarelas pequenas. Ao hibernar no inverno, descansam debaixo da terra bulbos de forma alongada, com um sabor muito pronunciado de miolo de alcachofra. Pudera, girassol e alcachofra são parentes, família Asteraceae.

O Tupinambo é nativo da América central, mas por aqui é pouco famoso. Na Europa, tive a chance de vê-lo a venda em Portugal e Irlanda. Por aqui, não achava mudas, sementes, nada. O jeito foi trazer.

Lá eu encontrava sempre em empórios, que nada mais são que a versão chique e elitizada de um mercado. Contudo, únicos lugares onde apareciam essas raridades, como cenouras coloridas, tomates amarelos e brancos, berinjelas coloridas, milhares de tipos de cogumelos... E tupinambos!

Pois bem, saiba de antemão. O tupinambo é frágil. Como a yakon e a mandioquinha, dura muito pouco fora da geladeira. Murcha, desidrata, escurece e estraga muito fácil. Então, precisa ser consumido de imediato, ou plantado em no máximo poucos dias. Diferente da batata-doce, do inhame, da mandioca, da batata, que aguentam na fruteira, Tupinambo dificulta a vida do agricultor: delicado demais.

Comprei dois tipos, quando ainda morava lá. Um plantado na Irlanda, outro trazido da Espanha. Como existem centenas de variedades, redondos ou alongados, lisos ou ramficados, brancos, amarelos, rosados ou roxos, para facilitar, chamarei os meus dois tipos de rosa-irlandês e amarelo-espanhol.

Tupinambos: amarelo-espanhol e rosa-irlandês

O rosa-irlandês cresceu apesar dos meus poucos cuidados. Plantei raso na terra, na primavera, esquecia sempre re regar, ficou mais na sombra do que deveria. Até que chegou o outono, esfriou demais e a planta secou. Os bulbos ficaram dormentes sob a terra. As folhas, mortas pelo frio.



Trouxe as batatas que colhi escondidas na mala, morrendo de medo de ser pego no aeroporto. Mas como elas são comestíveis cruas, se alguém reclamasse, eu comia ali mesmo. Pessoas trazem maçãs, lanchinhos, porque não posso trazer meus tupinambos? hehe

Chegando aqui, em pleno verão, plantei os frutos da minha primeira colheira, mais um espanhol-amarelo que comprei antes de voltar. O calor e o sol fizeram milagres. A planta não ficou muito alta, mas veja a diferença entre eles:


(Amarelo-espanhol e rosa-irlandês, segunda colheira, no Brasil)

Note que eles estavam com os talos apodrecendo, calor demais

Agora é meio de junho, mas ainda está calor. Replantei os bulbos em seguida, dei mudas para alguns amigos. Agora é torcer que brotem antes do inverno, caso contrário, acho que vão colapsar.

Tupinambo - Informações Técnicas de Cultivo

O tupinambo gosta de meio-sol ou pleno sol. Não tolera solos muito secos nem muito argilosos, sem drenagem. O ideal é que sejam ricos em matéria orgânica, profundos e bem drenados. Porém, vai bem em quase qualquer local - embora os bulbos saiam menores.

Cada batata é produzida lá no fundo da terra, então, é legal que se plante num conteiner ou caixote, de forma que fique fácil cavocar pra remover os tupinambos de lá.

Também vale fazer acima do solo uma "montanha", misturando terra do local, terra preta adubada e areia. A proporção varia em relação ao tipo de terra que se tem no local. Terra preta adubada é legal, mas plantar nela pura hpa dois problemas: ela não retem a umidade e é fértil demais, produzindo mutas folhas e poucas batatas.

A minha terra é argilosa, então fiz 10 partes de terra do local + 5 partes de terra preta adubada + 2 partes de areia ou vermiculita.

Cobri com serragem e folhas secas. Essa cobertura evita que a pilha perca umidade, deixa o solo mais fresco e inibe crescimento de plantas daninhas.

Para ilustrar, faça de acordo com o seguinte esquema:

(Clique sobre a imagem para ampliar)

Plantio: Primavera-Verão
Colheita: Antes da floração ou após secar a parte aérea
Tempo de colheita: Entre 6 e 10 meses

Observações:
Se não colhido, ele pode apodrecer no solo, deve ser retirado e replantado em nova pilha.

Informações Gastronômicas

Crocante cru, cremoso cozido. Suavemente adocicado, aroma amendoado, sabor de alcachofra.

Deve ser cozido em fogo baixo e com casca, para que mantenha a polpa branca. Caso contráro, ela escurece. Tem textura de batata cozida. Cozinha rápido.

Por ter sabor de miolo de alcachofras, vai especialmente bom com alho, alecrim e azeite. As possiblidades são infinitas.

Tem pouca caloria e amido, e é rico em inulina. Possui um efeito colateral: em excesso, a inulina produz gases.

"Tempo de mastruço rasteiro" ou "Os melhores perfumes vem nos melhores frascos"

Quer um sinal de que o inverno (deveria) estar chegando? Numa fresta aqui, numa quina de parede, num cantinho na calçada. Preste atenção, porque agora é época. O mastruço rasteiro está brotando, graças as noites mais frias.

Um emaranhado de mastruço

Todo ano, por volta de maio, começam os brotinhos do Coronopus didymus aparecer. É uma planta tão pequena, mas tão pequena, que é preciso procurá-la no chão, quase abaixado. Uma única folha, crespa igual a uma de samambaia, mal chega a 5 cm.

Repare. Já dá pra ver as folhinhas dele, crespas, finíssimas, partindo todas da mesma base, surgindo. Parece quase uma mandala. Passadas umas semanas, ele se estica, ramifica, espalha.

Mastruço, em forma de roseta, brotando na entrada de casa
Você não vai vê-la em vasos, raramente em jardins novos ou calçadas recém reformadas. Ela em geral se estabelece em um local, floresce e enche o solo de sementes - isso lá pelo começo da primavera. E coitada, vai definhando com o calor, até que antes de novembro já desapareceu do mapa. Por isso, elas brotam todas ao mesmo tempo, originárias de uma plantinha que ali cresceu e semeou, nos anos anteriores. Se lembra de uma ano passado, vá ver - capaz que as filhinhas dela estejam por lá.

Não sou uma pessoa viajada, então não posso dizer que as plantinhas nasçam no país todo. No sudeste, garanto que sim. No sul, certamente. Depende do quão frio é o inverno de onde você mora. Noites frias, disso o Mastruço adora!

Depois que cresce um pouco, fica comprido e ramificado.
Parente da mostarda, seu sabor é muito parecido com ela. Só que muito mais intenso. Uma folhinha basta para perfumar um prato inteiro. Seus óleos essenciais são uma mistura de mostarda, couve e raiz forte: glocosinolato, glucotroaeolina, tiocinatos e isotiocinatos.

É usada, também, pelas suas propriedades medicinais. Mas o que interessa mesmo é seu potencial culinário.

Combina especialmente bem com: salada crua, pães, azeitona, azeite de oliva, massas integrais, carnes fortes, tomate, lentilha, ervilha, grão de bico.

Ou seja, qualquer prato com um dos ingredientes anteriores ficará mais gostoso com o matruço rasteiro.

Prove e depois me conte!
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